15/10/2026
Fim da escala 6x1: como os supermercados e atacarejos devem se preparar
POR Barbara Fernandes
Publicado em:

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1, foi aprovada pelo Senado nesta quarta-feira (14). A medida estabelece dois dias de descanso e redução gradual da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição salarial.
Para supermercados e atacarejos, que operam em horários
estendidos e precisam manter equipes disponíveis nos períodos de maior
movimento, inclusive aos finais de semana e feriados, a mudança exigirá
planejamento operacional, revisão de custos e novas estratégias de gestão de
pessoas.
Segundo Lina Nakata, professora da FIA Business School, os empresários do setor devem avaliar o impacto financeiro entre duas opções principais:
1. Contratar novos funcionários para cobrir os turnos vagos
2. Pagar horas extras nos dias de maior movimento, respeitando os limites legais
Finalmente, como prevenção, é recomendável verificar essas ações com o departamento jurídico e os sindicatos para entender o uso de banco de horas, jornadas parciais e regimes de compensação.
Regras não entram em vigor imediatamente
A emenda ainda precisa ser promulgada e publicada para que os prazos de implementação comecem a contar. Após a promulgação:
- Dentro de dois meses (60 dias) o limite semanal cairá para 42 horas e os trabalhadores passarão a ter direito a dois dias de descanso remunerado por semana
- Após 14 meses, a jornada máxima será reduzida para 40 horas semanais
Durante a transição, acordos e convenções coletivas poderão estabelecer condições específicas para a organização das jornadas, conforme as regras previstas no texto. A redução também não elimina a possibilidade de horas extras ou mecanismos de compensação, como o banco de horas.
Fim da escala 6x1 no varejo alimentar: como se preparar
1. Faça um diagnóstico da operação por loja
O 1º passo é entender como cada unidade funciona na prática para identificar onde a operação precisa de mais cobertura e onde há oportunidades para distribuir melhor as equipes. Esse diagnóstico deve considerar:
- Fluxo de clientes por horário e dia da semana, identificando picos de movimento e períodos de menor demanda.
- Sazonalidades e datas comerciais, como feriados, finais de semana e períodos de maior volume de vendas.
- Necessidade de mão de obra por atividade, incluindo caixas, atendimento, reposição, recebimento de mercadorias e perecíveis.
- Lacunas de cobertura, especialmente nos horários de abertura, fechamento e reposição noturna.
- Custos atuais com pessoal, horas extras, banco de horas e eventuais necessidades de contratação.
"Desde já, é necessário que as empresas do varejo alimentar possam identificar áreas críticas onde a ausência de funcionários paralisa a operação, como açougue, padaria e frente de caixa, por exemplo", explica Lina.
2. Simule os impactos financeiros antes de contratar
A redução da jornada sem diminuição salarial pode elevar o custo por hora trabalhada caso a operação mantenha o volume de atividades e precise recompor as horas de cobertura.
Por isso, antes de abrir novas vagas, as redes devem simular diferentes cenários de escala, as necessidades de cada setor e os impactos sobre a folha de pagamento. A análise também deve incluir os efeitos sobre horas extras, absenteísmo, produtividade e eventuais mudanças na distribuição de tarefas.
A contratação de novos colaboradores pode fazer parte da solução, mas não precisa ser o primeiro movimento.
3. Redesenhe as escalas conforme a demanda
Isso significa abandonar modelos excessivamente homogêneos e considerar as particularidades de cada unidade, como:
- Fluxo de consumidores
- Perfil de compra
- Mix de produtos
- Horários de maior demanda
As primeiras áreas a sentir os efeitos da mudança tendem a ser as equipes de frente de loja, especialmente operadores de caixa, repositores e profissionais de atendimento. O impacto deve alcançar setores como recebimento de mercadorias, reposição noturna e perecíveis, que dependem de janelas operacionais específicas.
O planejamento precisa considerar não apenas os dois dias de descanso, mas também a distribuição das jornadas ao longo da semana, a continuidade das atividades e a disponibilidade de profissionais com as competências necessárias em cada turno.
4. Teste o novo modelo antes de ampliar a implementação
Nesse período pré promulgação, e no espaço de 60 dias após, a recomendação é iniciar projetos-piloto o mais rápido possível para simular as novas regras e medir alguns indicadores como:
- Custo de mão de obra por loja e por hora de operação.
- Produtividade por colaborador e por setor.
- Tempo de espera nos caixas e qualidade do atendimento.
- Disponibilidade de produtos nas gôndolas.
- Horas extras e necessidade de cobertura de turnos.
- Satisfação dos clientes e dos colaboradores.
Os resultados permitem identificar gargalos, corrigir escalas e ajustar a distribuição de tarefas antes de levar as mudanças para toda a operação.
5. Avalie onde a tecnologia pode reduzir tarefas operacionais
Soluções de automação podem reduzir o tempo dedicado a tarefas repetitivas e ajudar as equipes a concentrar esforços em atividades mais estratégicas.
Entre as alternativas estão sistemas de self checkout, autoatendimento em determinadas seções, plataformas de gestão de escalas com recursos preditivos, etiquetas digitais e ferramentas para automatizar processos de reposição e controle de estoque.
A especialista da FIA Business School acrescenta ainda ferramentas que gerenciam a força de trabalho, substituindo planilhas manuais por softwares de gestão de jornada baseados em dados preditivos, que cruzam previsão de vendas, fluxo de clientes e regras trabalhistas para gerar escalas otimizadas automaticamente.
A escolha das soluções deve partir dos gargalos identificados no diagnóstico, com avaliação do investimento necessário, do potencial de ganho de produtividade e dos efeitos sobre a experiência de compra.
6. Prepare lideranças e equipes para a mudança
A implementação não depende apenas de sistemas e planilhas. Gerentes, supervisores e profissionais de recursos humanos precisarão estar preparados para administrar novas escalas, distribuir atividades e lidar com dúvidas dos colaboradores.
A comunicação interna deve explicar o cronograma de transição, as mudanças previstas e os critérios utilizados para organizar as jornadas. Também é importante estabelecer canais de escuta para identificar dificuldades durante os testes e a implementação.
Outro ponto é antecipar as conversas com sindicatos e acompanhar os acordos e convenções coletivas aplicáveis a cada categoria, respeitando as regras legais e os prazos de transição.
Supermercados que já adotam a escala 5x2 também precisam se preparar?
Em alguns casos, sim. A adoção da escala 5x2, por si só, não significa que a operação esteja adequada às novas regras, especialmente quando a jornada semanal ainda é de 44 horas.
Lina Nakata entende que essas operações levam vantagem cultural e logística, mas enfrentam um desafio direto de saldo de horas. "Com 48 minutos a menos, a empresa precisa reduzir o tempo de sobreposição de turnos nos horários intermediários do dia", enfatiza.
A recomendação de Lina nesses casos é transicionar o foco de cumprimento de horário para cumprimento de rotina, ou aumentar o escopo de trabalho, treinando operadores de caixa para apoiar o estoque, por exemplo. "Isso absorve a redução diária de carga sem necessidade de novas contratações."
Adiar a preparação pode aumentar os riscos para o varejo
"Apesar do período de transição, é muito recomendável mudar o quanto antes, para evitar riscos relevantes" - Lina Nakata, professora da FIA Business School
A fala de Lina reforça a importância de não deixar a adaptação para depois de as regras entrarem em vigor. De acordo com a especialista, é justamente esse preparo com antecedência que pode evitar:
Passivo trabalhista e multas, pois há um risco de se pagar horas extras indevidas, além de descumprir com os descansos semanais remunerados, gerando multas administrativas da fiscalização do trabalho
Perda de vendas por ruptura e filas a partir do momento em que as operações ficam desfalcadas. Se a empresa não lidar bem com a mudança, os consumidores vão rapidamente migrar para a concorrência
Escassez de mão de obra, pois novos colaboradores serão demandados no período de transição, além de haver um impacto de custos mais elevados
Queda da qualidade no clima organizacional, já que as mudanças impostas de forma abrupta geram escalas confusas, sobrecarga nos funcionários presentes, aumento de conflitos com lideranças e aumento imediato do turnover
A principal questão para o varejo alimentar será equilibrar a adequação às novas regras trabalhistas com a manutenção da produtividade, do atendimento e das margens. Antecipar esse processo pode ajudar as redes a atravessar a transição com maior previsibilidade e a identificar oportunidades de eficiência em suas operações.
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Barbara Fernandes
Repórter








