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18/09/2026
Lojas 24 horas voltam a crescer no varejo brasileiro, mas sob outra lógica
POR João Fernandes
Publicado em:

O modelo de loja aberta 24 horas está de volta ao radar do varejo alimentar brasileiro. Após um ciclo de expansão seguido de retração, o formato renasce sustentado por automação, inteligência de dados e avaliação rigorosa de viabilidade antes de cada abertura. A proposta já não é replicar o supermercado tradicional com equipe completa de madrugada, mas operar de forma enxuta, mantendo a eficiência.
Do hipermercado ao micro-formato
Fernando Gibotti, cofundador da Rock Encantech, analisa que o formato tradicional de grandes lojas abertas a noite toda encolheu pelos altos custos operacionais de mão de obra e segurança. Em seu lugar, avançam os minimercados autônomos em condomínios e lojas urbanas de alta densidade.
Na prática, a Rede Plus e a Coop confirmam essa mudança. Para Jocy Astolphi, diretora-geral da Rede Plus (com 10 lojas 24h), o modelo surgiu como alternativa para rentabilizar unidades menores. Além da receita extra no período da madrugada, deslocar o abastecimento e a limpeza para esse turno liberou o fluxo diurno.
Já Celso Furtado, diretor-geral da Coop, destaca que a rede atingiu 21 unidades no formato, focando na conveniência para cooperados enquanto monitora a rentabilidade do modelo.
Onde faz sentido abrir de madrugada
A decisão de manter as portas abertas 24 horas exige critérios rigorosos. Gibotti aponta quatro variáveis essenciais de geomarketing
- Densidade e fluxo noturno (próximo a hospitais, universidades e hubs de transporte)
- Perfil demográfico (jovens e trabalhadores de turnos flexíveis)
- Bons índices de segurança num raio de 500 metros
- Ausência de concorrentes diretos na mesma janela
Na Rede Plus, a régua é financeira. A madrugada (00h às 06h) precisa responder por pelo menos 20% do faturamento total da unidade — com piso de R$ 300 mil mensais nesse intervalo — para cobrir os custos adicionais.
O perfil do shopper noturno
Há convergência sobre o comportamento desse consumidor, com missões de conveniência ou emergência, marcada pelo consumo imediato (bebidas, lanches, salgados), e de reabastecimento (açougue ou cesta básica). Gibotti acrescenta que esse cliente é menos sensível a preço e disposto a pagar pelo "convenience premium".
Na Coop, Furtado pondera que parte expressiva desse público já é formada por clientes habituais da marca, com os horários alternativos como única alternativa ou até mesmo estilo de vida.
Já Jocy nota dois picos de movimento na Rede Plus, um às 23h e outro às 05h, formados por trabalhadores em troca de turno.
Segurança e os impactos da escala 6x1
A segurança permanece como a principal dor de cabeça da operação. A Rede Plus adota reforço de vigilância e chega a fechar estacionamentos à noite para mitigar riscos, enquanto a Coop trata o indicador de criminalidade local como critério eliminatório de expansão. Gibotti aponta que câmeras com análise computacional e acesso às lojas via aplicativo ou biometria podem ajudar a reduzir a dependência de segurança física presencial.
A esse cenário soma-se o debate sobre o fim da jornada 6x1. Para Gibotti, o inevitável aumento no custo da mão de obra noturna acelerará a transição para modelos híbridos, com atendimento humano de dia e operação autônoma à noite.
Um mercado em maturação
Contudo, o momento atual mostra uma maturação do varejo noturno. A primeira onda no Brasil sentiu o peso da estrutura operacional engessada, mas o ciclo agora ganha sustentabilidade ao trocar a simples replicação de grandes lojas por tecnologia, precisão de público e expansão pautada em dados.
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