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01/09/2026

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O fim do Grupo Ricoy: da recuperação judicial à falência

POR Barbara Fernandes

Publicado em:

Ricoy Supermercado
Ricoy Supermercados, uma das principais bandeiras do Grupo RicoyFoto: Divulgação

Após 32 anos de atuação em São Paulo, foi declarada a falência do Grupo Ricoy. A sentença por parte da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais foi proferida no dia 28 de agosto, e envolve todas as 33 operações do varejista, incluindo o Ricoy Supermercados e o Vencedor Atacadista


No varejo alimentar, também foram atingidas as seguintes bandeiras:

  • Aki Tudo
  • Estrela do Guarujá
  • Grande Caieiras
  • Hira
  • Nações Unidas
  • Nutrisam
  • Pérola de Guaianazes
  • Peri
  • Riviera

A decisão encerra o processo de Recuperação Judicial e inicia uma nova etapa, na qual os bens e recursos das empresas deverão ser levantados e utilizados, dentro das regras previstas em lei, para o pagamento dos credores. Ao mesmo tempo, as operações ficam proibidas de vender, transferir ou oferecer seus bens como garantia por conta própria.


O documento também declarou que a atual administradora judicial da empresa, a Vivante Gestão e Administração Judicial, tem até 60 dias para apresentar um plano detalhado para a venda dos ativos.


Trajetória da crise do Grupo Ricoy


Em 2012, o Grupo Ricoy chegou a alcançar 96 unidades, distribuídas por 70 municípios no estado de São Paulo. Segundo Sandro Benelli, professor de governança da FGV e conselheiro de empresas, esse cenário favoreceu a expansão, com ativos regionais baratos, disputa concentrada entre supermercados e hipermercados e um atacarejo ainda marginal. Porém, a ascensão dos atacarejos mudou a régua de preços do consumidor e colaborou para o começo da crise da empresa.  


“Quem cresceu somando lojas sem integrar sistemas, sortimento e negociação com a indústria ficou com o custo da escala e sem o benefício dela”, explica o especialista.


2024 - Crise começa a ser evidenciada


Após a pandemia, a empresa começou a sentir impactos das dívidas acumuladas, inflação e forte concorrência no setor de atacarejos. O cenário se agravou em 2024 e iniciou um processo de desinvestimento em ativos. A empresa passou a fechar unidades deficitárias e atrasar o pagamento a fornecedores. 


2025 - Grupo Ricoy vende ativos e entra com a Recuperação Judicial


Em maio de 2025, o Grupo Bem Barato adquiriu 9 lojas da empresa entre as bandeiras Ricoy Supermercados e Vencedor Atacadista. Na época, o Grupo Ricoy afirmou que a operação fazia parte “do compromisso da empresa em equilibrar resultados e fortalecer operações, garantindo qualidade e proximidade com clientes, colaboradores e parceiros comerciais.”


Ainda no início do ano, o Ayumi Supermercados assumiu uma unidade da companhia localizada em Guarapiranga.


Já no dia 29 de outubro, a empresa entrou oficialmente com o pedido de Recuperação Judicial. Naquele momento, havia 33 lojas em funcionamento, muitas delas afetadas pelo desabastecimento. Cerca de 21 dias depois, o pedido foi aceito e teve início o “Stay Period”. 


Nesse momento, todas as ações de execução e cobranças judiciais contra o Ricoy foram congeladas por 180 dias. Ao mesmo tempo, o Grupo ganhou um prazo de dois meses para apresentar a proposta detalhada de como pretendia pagar os credores. Na sequência, a Vivante Gestão e Administração Judicial assumiu o papel de administradora judicial para fiscalizar o caixa e servir de ponte entre a empresa, a juíza e os credores.


Contudo, no fechamento do ano o faturamento da empresa ficou abaixo do ponto de equilíbrio necessário. De acordo com Benelli, o laudo do Grupo descreveu a crise como um desequilíbrio conjuntural e essa foi a primeira falha no diagnóstico. 


“O que o Ricoy enfrentava era um problema de posicionamento. Uma rede de supermercado de vizinhança que cresceu comprando redes regionais em dificuldade, herdou passivos fiscais nessas aquisições, e se viu espremida entre o atacarejo de um lado e as grandes redes de outro, sem escala de compra para competir por preço nem diferenciação suficiente para competir por serviço”, explica. 


Benelli acrescenta ainda que, quando o capital de giro passou a depender do prazo do fornecedor e encurtou, a operação virou uma corrida contra o próprio caixa. “Juros altos aceleraram o desfecho, mas não foram a causa”, ressalta.


Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), o colapso da rede não decorreu unicamente do endividamento, mas da perda de margem de contribuição e da incapacidade de manter o giro operacional mínimo no varejo supermercadista.


2026 - Grupo Ricoy tem plano de RJ rejeitado pelos credores e vai à falência


O Grupo parou de entregar documentos operacionais, contábeis, trabalhistas e financeiros essenciais para a administradora judicial em fevereiro de 2026, impedindo o acompanhamento da situação. 


Em visitas às operações, a administradora também afirmou que o Ricoy fechou 19 lojas, e o desabastecimento nas unidades restantes, assim como a redução de atividades, se intensificou, prejudicando as chances de uma recuperação do faturamento. Além disso, foi relatado o uso de máquinas de cartão que direcionavam pagamentos para empresas fora do Grupo em recuperação. 


Posteriormente, a falta de documentos foi atribuída às interrupções nos serviços de internet, e a questão com as máquinas de cartão foi justificada como uma medida de proteção financeira contra retenções bancárias.


Mesmo assim, Benelli aponta que a confiança havia sido abalada. “Depois disso, nenhum plano seria aprovado, porque a discussão deixou de ser sobre deságio e prazo e passou a ser sobre a credibilidade da informação.”


Guilherme Giussani, diretor técnico da CEMAAC-ACSP (Câmara de Mediação e Arbitragem da Associação Comercial de São Paulo), corrobora com a visão e enfatiza que, no contexto da empresa, transparência e governança eram fundamentais. “Dificuldades na apresentação de documentos ou na compreensão dos fluxos financeiros podem comprometer a confiança dos credores e dificultar a avaliação da real capacidade de recuperação da empresa.”


Um pouco depois, em maio, a credora ARC Logística e Alimentos Ltda. pediu a falência do Grupo, alegando o não pagamento de mais de R$ 620 mil em serviços prestados após o início da recuperação. No mês seguinte, a Tetra Pak divulgou a paralisação das atividades da unidade Vencedor Lácteos devido ao não pagamento de contratos de locação de equipamentos, solicitando autorização para retirar suas máquinas da fábrica.


Também em junho, ocorreram as primeiras reuniões oficiais com os credores para debater o plano de pagamento apresentado pelo Ricoy. Mas, sem consenso, as votações foram adiadas. Pouco depois, no dia 14 de julho, o plano de Recuperação Judicial submetido aos credores foi rejeitado pela Clase III (fornecedores e prestadores de serviço sem garantia real). Uma das principais justificativas foi que o plano da empresa era inviável para quitar os mais de R$ 461 milhões devidos, além do índice de ruptura nas lojas. 


Ainda em julho, a distribuidora Genco Energia notificou a inadimplência de R$ 339 mil em faturas de luz e pediu a autorização para suspender o fornecimento de energia de unidades do mercado livre operadas pelo Grupo. Já no final do mês foi ajuizada uma ação de despejo contra a unidade do Supermercado Nações Unidas devido à falta de pagamento de aluguel pós-recuperação.


No início de agosto, os credores tentaram traçar um plano alternativo para salvar a empresa, mas a proposta reuniu apenas 0,185% dos votos dos credores presentes, ficando muito abaixo dos 35% mínimos exigidos por lei para sequer ir à votação que ocorreria no dia 31 de agosto. Para Benelli, a rejeição mostra que os credores já haviam concluído ali que não havia ativo operacional para preservar.


Como alternativa para tentar levantar caixa, no dia 14 de agosto, o Grupo fechou um acordo com a Italac, marca do Goiásminas, para vender ativos da sua empresa de laticínios, a A.R.C. Logística e Alimentos, e as marcas Líder e Tânia. O negócio ainda depende da aprovação do Cade. 


Pouco depois, Cícero Santos Guedes, controlador da empresa, protocolou petição apontando irregularidades contábeis e acusando os ex-sócios de ocultar passivos trabalhistas na ordem de meio bilhão de reais e de simular operações contábeis de R$ 250 milhões.


Após todas essas movimentações, no dia 28 de agosto, a juíza Fernanda Perez Jacomini, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, assinou a sentença que decretou oficialmente a falência do Grupo Ricoy. O controle da empresa foi retirado dos donos originais e os bens foram bloqueados para leilão futuro.


Na avaliação de Gamboa, o elemento econômico central que determinou a derrocada do Ricoy foi a impossibilidade de gerar margem de contribuição (diferença entre vendas e despesas variáveis) positiva. “No setor supermercadista, as margens líquidas são historicamente reduzidas (entre 1% e 3%), exigindo um modelo baseado em volume massivo e giro rápido de estoque”, explica.


“Ao perder o poder de barganha com fornecedores de bens de consumo e a capacidade de obter prazos de pagamento, o custo de mercadoria vendida da empresa encareceu drasticamente. Como consequência, a operação tornou-se deficitária em sua base, gerando prejuízo antes mesmo do cômputo das despesas financeiras e do serviço da dívida”, conclui Gamboa.


Para Giussani, o caso reforça a importância de mecanismos de negociação estruturada ao longo da crise. “Mediação e negociação podem contribuir para aproximar empresa e credores e construir alternativas antes que as posições se tornem irreconciliáveis”. Mas o diretor pontua que esses instrumentos dependem de transparência e boa-fé. “Eles não substituem a necessidade de viabilidade econômica nem conseguem, isoladamente, recompor uma relação de confiança já profundamente deteriorada”, ressalta.


O que deve ocorrer agora com o Grupo Ricoy?


Com a falência, a empresa passa a ser tratada como massa falida a ser liquidada. Giussani entende que unidades, marcas e outros ativos economicamente viáveis podem ser preservados ou transferidos a terceiros ao longo do processo falimentar. “O foco deixa de ser a recuperação da empresa sob a estrutura existente e passa a ser a preservação e realização dos ativos, buscando o maior retorno possível aos credores, visando à recuperação do seu crédito.”


Benelli também traz sua visão. “Deve sobrar pouco a vender, os pontos são majoritariamente alugados, então o ativo real são equipamentos, frota, a fábrica de laticínios parada no Mato Grosso e uma marca desvalorizada”, explica. 


“A venda em bloco seria o melhor cenário, mas o provável é leilão pulverizado, com os pontos indo direto para concorrentes”, pondera. O executivo ainda acrescenta que o capítulo que fica em aberto é a apuração dos recebíveis desviados para fora do perímetro, “que pode gerar ação revocatória, responsabilização de sócios e crime falimentar”. Segundo ele, esse processo deve durar de 3 a 5 anos. 




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TAGS:Gestão e negócios, Recuperação judicial,Falência,Grupo Ricoy
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