10/06/2026
Patrocínios, campeonatos e clubes: como a lógica do varejo alimentar transforma a gestão do futebol brasileiro
POR Ismael Jales
EM 10/06/2026

Estadio do Mirassol FC (Crédito: Divulgação)
A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira, 11, com México e África do Sul. Sendo assim, nas próximas semanas o futebol voltará a ocupar espaço privilegiado nas conversas, no consumo e nas estratégias de marketing das empresas, mobilizando audiências de bilhões de pessoas ao redor do mundo.
No Brasil, o varejo alimentar conhece bem essa dinâmica. Há décadas, supermercados e atacarejos utilizam o esporte mais popular do país para fortalecer sua conexão com os consumidores. Porém, o que antes se concentrava principalmente em patrocínios e ações de marketing, ganhou novas dimensões nos últimos anos.
Em diferentes regiões do país, empresários que construíram grandes operações supermercadistas passaram a ocupar posições de protagonismo dentro do futebol. Levaram aos clubes conceitos familiares do varejo, como disciplina financeira, controle de custos, planejamento de longo prazo e atenção permanente à eficiência operacional. Ao mesmo tempo, redes seguem apostando em campeonatos, clubes e parcerias comerciais para ampliar sua presença junto a milhões de torcedores.
Em comum, essas iniciativas refletem a percepção de que o futebol continua sendo um dos ativos mais poderosos de conexão com o consumidor brasileiro, capaz de fortalecer marcas, ampliar visibilidade e consolidar vínculos regionais.
Mas o que acontece quando a lógica do supermercado chega aos times? Para entender como princípios típicos do varejo alimentar estão influenciando a administração esportiva, a SA+ conversou com Pedro Lourenço, fundador do Supermercados BH e controlador da SAF do Cruzeiro, e Rodolfo Antunes, diretor da Rede Sol e integrante da estrutura de gestão do Mirassol.
Do caixa do supermercado para o comando do Cruzeiro
Pedro Lourenço conhece bem o poder dessa conexão. Fundador do Supermercados BH, 4 ª maior rede supermercadista do país, o empresário passou anos acompanhando o Cruzeiro como patrocinador antes de assumir o controle da SAF celeste. Ao tomar uma posição mais ativa na gestão do clube, decidiu aplicar os mesmos princípios que ajudaram a transformar o BH em uma potência do varejo nacional.
"Quando surgiu a oportunidade de contribuir mais diretamente, entendi que poderia ajudar levando princípios que sempre fizeram parte da minha trajetória empresarial: responsabilidade, controle, organização, disciplina e respeito pelo dinheiro", afirma.
Para Pedro, um dos maiores desafios da administração esportiva é impedir que a emoção interfira nas decisões estratégicas. "Futebol tem emoção, mas gestão precisa ter equilíbrio."
Os dois lados de Pedrinho: o "Pedrinho BH" na inauguração de mais uma das tantas unidades da varejista mineira e o "Pedrinho do Cruzeiro", torcedor e administrador de um dos maiores clubes de futebol do Brasil (Fotos: Divulgação BH e Cruzeiro)
A lógica é semelhante à que rege o varejo alimentar. O crescimento sustentável depende de planejamento, controle financeiro e capacidade de pensar no longo prazo, sem ceder à pressão do curto prazo. Essa visão também influencia a relação comercial entre o clube, o supermercado e seus parceiros.
"O mercado entende a força que o Cruzeiro e o BH têm juntos. Naturalmente existem conversas e interesse de parceiros em participar desse movimento, porque futebol e varejo têm uma conexão muito forte com o consumidor", diz.
O modelo Mirassol: eficiência acima de tudo
No interior paulista, um dos casos mais emblemáticos da relação entre varejo alimentar e futebol atende pelo nome de Junior Antunes. Conhecido como Juninho, o empresário construiu o Sol Antunes, varejista que opera quatro supermercados em Mirassol e responde por cerca de um terço do faturamento da associação Rede Sol, central de negócios que reúne 10 empresas e 17 lojas no interior paulista. Há décadas, ele atua como o principal responsável pela gestão financeira e esportiva do Mirassol.
Ao lado do presidente Edson Ermenegildo, Juninho ajudou a transformar o clube de uma equipe sem divisão nacional em 2019 em uma presença consolidada na elite do futebol brasileiro. O trabalho é acompanhado de perto por seu filho, Rodolfo Antunes, diretor da Rede Sol e integrante da estrutura de gestão do clube.
Diferentemente de modelos baseados em SAFs e investidores controladores, o Mirassol segue estruturado como associação civil. Nesse contexto, Juninho atua como principal articulador da gestão esportiva e financeira do clube.
Para Rodolfo, não existe uma cultura empresarial para o supermercado e outra para o futebol. "Os princípios que orientam a gestão da Rede Sol são os mesmos aplicados na administração do Mirassol. A disciplina, o controle e a forma de tomar decisões acompanham qualquer negócio."
O rigor ajuda a explicar a reputação do clube como uma das operações mais eficientes do país. Em vez de concentrar recursos em contratações de impacto imediato, a estratégia priorizou infraestrutura, formação de atletas e construção de valor no longo prazo.

Sol Antunes // Juninho Antunes ao lado dos filhos Rodolfo e Gustavo, após o acesso à Série A do Brasileiro — Foto: Reprodução/Instagram
O modelo chama atenção também por seguir um caminho diferente daquele adotado por boa parte dos clubes brasileiros nos últimos anos. Ao contrário do Cruzeiro, o Mirassol não é uma SAF e não conta com um investidor controlador. O clube permanece estruturado como associação civil, financiando sua operação principalmente com receitas próprias, direitos de transmissão, patrocínios e negociações de atletas.
Patrocínio e parcerias também fazem parte do jogo
A presença do varejo alimentar no futebol brasileiro não se limita aos casos em que empresários assumiram participação direta na gestão de clubes. Nos últimos anos, diversas redes ampliaram sua atuação por meio de patrocínios e acordos comerciais. O Assaí Atacadista consolidou sua presença no esporte patrocinando algumas das principais competições do calendário nacional. O Supermercado Pinheiro associou sua marca aos dois maiores clubes do Ceará, Ceará e Fortaleza. Já o Giga Atacado à Portuguesa. O Grupo Muffato esteve ao lado do Londrina e também do Cascavel. Enquanto o Fort Atacadista ampliou sua presença regional ao dar nome ao Campeonato Catarinense. Esses são apenas alguns dentre tantos outros exemplos de parcerias do tipo no esporte nacional.

Por alguns anos o Assaí atacadista teve o Naming Rights do principal campeonato de futebol do Brasil, o Brasileirão. Atualmente segue investindo em parcerias e publicidade (Foto: Assaí)
Embora os formatos sejam diferentes, todos os casos refletem uma lógica semelhante. Em um país onde o futebol continua mobilizando milhões de torcedores e atravessando gerações, a associação ao esporte oferece alcance, identificação regional e uma conexão emocional difícil de ser reproduzida por outros canais de comunicação. Para empresas que disputam diariamente a preferência do consumidor, essa proximidade pode representar uma vantagem competitiva importante na construção e no fortalecimento de marca.
O futebol abre portas, mas quem fideliza é a loja
Apesar da força do esporte como ferramenta de comunicação, Pedro Lourenço faz uma ressalva importante. Para ele, o futebol ajuda a aproximar marcas das pessoas, mas não substitui aquilo que realmente sustenta um negócio no longo prazo. "O importante é construir parcerias saudáveis e sustentáveis para todos", afirma.
Na prática, a fidelização continua acontecendo longe dos gramados. "O futebol tem uma força de comunicação muito grande e ajuda a aproximar ainda mais a marca das pessoas. Mas acredito que o principal cartão de visitas do BH continua sendo a experiência que entregamos nas lojas: preço justo, atendimento, variedade e confiança. O futebol fortalece a conexão emocional, mas quem fideliza o cliente é o trabalho do dia a dia."
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