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20/10/2026
Sucessão em empresas familiares exige preparo, regras claras e disposição para conversar
POR João Fernandes
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Durante muito tempo, falar de sucessão foi quase proibido nas empresas familiares. O assunto remetia à perda de poder, aposentadoria forçada e a conflitos que ninguém queria encarar. Hoje ele faz parte da conversa de quem pensa em perenidade, e esse foi o fio condutor do painel “Famílias Empresárias — Como profissionalizar e garantir a cultura da empresa”, que aconteceu no Fórum Nacional de Integração Varejo e Indústria 2026, promovido pela SA+, que ocorreu entre os dias 7 e 8 de outubro na capital paulista.
A conversa contou com Lindonor Peruzzo e Lindonor Peruzzo Jr., do Grupo Peruzzo, e Rodrigo Garla, do Grupo Marilan. A conversa foi conduzida por Rodrigo Pecchiae, consultor especialista em governança de empresas familiares, que, antes dos relatos, apresentou os conceitos por trás desse tipo de gestão.

Painel “Famílias Empresárias — Como profissionalizar e garantir a cultura da empresa” durante o Fórum Nacional de Integração Varejo e Indústria 2026 (Foto: SA+)
Três círculos e quatro salas
Na visão de Pecchiae, administrar uma empresa familiar exige método. Tudo começa pela distinção entre três sistemas que se misturam por completo na primeira geração. São eles: a família, a empresa e a propriedade. Cada um pede seus próprios instrumentos. A família se organiza em torno de um protocolo, que define desde a situação dos agregados até o regime de casamento e a elaboração de testamentos. A empresa se apoia em planejamento estratégico, contrato social ou estatuto e políticas internas. Os sócios, por sua vez, formalizam entrada, saída e destino dos dividendos em um acordo.
Para tornar isso prático, ele propôs que cada assunto seja levado a uma sala própria. A dos proprietários trata de patrimônio e sociedade; a da família cuida de valores, educação e harmonia; a do conselho observa o futuro do negócio e a da gestão resolve o dia a dia. Na reunião do conselho, ele aponta que ao menos 80% da pauta deve olhar cinco anos adiante, enquanto o curto prazo cabe à diretoria.
Quando a sucessão deixa de ser tabu
Integrante do conselho do Family Business Network (FBN), associação que reúne cerca de 250 famílias empresárias no Brasil, Pecchiae afirmou que o termo sucessão já pesou muito mais do que pesa hoje. Para ele, suceder não é tirar um e colocar outro. É preparar o sucessor para que o sucedido possa sair quando quiser, e não apenas quando estiver cansado. Cabe ao fundador puxar o processo e assumir o papel de grande professor, sem temer a perda de poder.
O desafio é grande, já que poucas famílias levam o negócio da 1ª para a 2ª geração, e menos ainda da 2ª para a 3ª . Um dos caminhos para ele, é engajar continuamente a geração seguinte, inclusive os filhos que não se interessam pelo varejo, mas têm aptidão para finanças, imóveis ou causas sociais.
“A sucessão é inevitável. Ou você vende a empresa ou você faz a sucessão, porque um dia você vai morrer” - Lindonor Peruzzo, Grupo Peruzzo
Cada empresa é única
Lindonor Peruzzo contou que o Grupo Peruzzo, empresa gaúcha de supermercados com 33 anos de história, tentou profissionalizar a gestão após conflitos entre os sócios. Os executivos que chegaram não conheciam a cultura da casa e quiseram implantar a própria, o que não rendeu bons frutos. Ele assumiu a liderança, o profissional deixou a empresa e a operação voltou ao ritmo normal. Para ele, o problema não foi falta de competência, e sim de alinhamento. Querer que uma loja de Bagé funcione como uma de São Paulo, comparou, é tão inviável quanto o caminho inverso. Hoje, executivos contratados cuidam de outras áreas, e apenas pai e filho representam a família na operação.
O Grupo Marilan, indústria que está perto de completar 70 anos, percorreu uma trajetória diferente, mas com lições parecidas. Rodrigo Garla, da 3ª geração, lembrou que a família busca apoio externo para estruturar a governança há 27 anos, desde a liderança do pai e dos tios. Quando oito integrantes da 3ª geração passaram a integrar a operação sem regras definidas, pequenos desentendimentos começaram a gerar atrito até chegar ao ponto em que os sucessores decidiram sair da empresa. A solução encontrada por Garla foi retornar ao conselho, em 2009. Em 2019, quando Rodrigo assumiu a presidência do conselho, um profissional contratado no mercado, por recomendação dos conselheiros independentes, passou a liderar a empresa.
Rodrigo defende a entrada de profissionais qualificados, mas lembra que um acionista à frente do negócio assume riscos e empreende de um jeito difícil de encontrar em um contratado. Com o tempo, a empresa sentiu perda de vigor, a autonomia dada ao executivo limitou a influência da família e a saída de outros profissionais por questões de vaidade e de cultura pesou no resultado. Em 2023, ele assumiu a companhia e encontrou um cenário que não reconhecia. “É a mesma coisa que entrar na sua casa, que você criou por muitos anos, e ver tudo estruturado de forma totalmente diferente do que você entende que deveria estar”, descreveu. Mesmo assim, ele evita receitas prontas. “Não existe um modelo, cada empresa tem que buscar o seu”, afirmou.
“Quando você tira a barriga do balcão, você acaba perdendo a operação e todo o legado que vem com a família.” - Rodrigo Garla, Grupo Marilan
A escolha de quem vai conduzir
No Grupo Marilan, a escolha passou por uma consultoria que avaliou o perfil dos acionistas da 3ª geração. Hoje, a estrutura inclui conselho de família, conselho de acionistas e conselho de administração, e os herdeiros foram preparados para entender a diferença entre ser acionista, conselheiro e executivo.
No Grupo Peruzzo, a sucessão é planejada com apoio de um professor e de um psicólogo, sem grandes consultorias. Um dos filhos de Lindonor, que seguiu para o ramo dos vinhos, optou por ser apenas acionista. Já Lindonor Jr., com quase 30 anos de empresa, se prepara para assumir o comando.
O peso de ser sucessor
Lindonor Jr. lembrou que o caminho de quem herda o negócio está longe de ser confortável. Ele trabalha na empresa desde que os supermercados tinham apenas um ano de vida e já recebeu a homenagem pelos 30 anos de casa. Segundo ele, para chegar até aqui foi preciso resiliência, porque o reconhecimento nem sempre chega quando se espera.
“Ser sucessor também não é fácil. A gente tem que trabalhar muito, conquistar o nosso espaço e mostrar que é bom” - Lindonor Peruzzo Jr., Grupo Peruzzo
Hoje, pai e filho estão 100% alinhados. Aos sucessores, Lindonor Jr. recomenda entender que a ponderação de quem passa o bastão não é freio, e sim amadurecimento. "Ao aceitar a hierarquia e a necessidade de aprovação, as coisas passam a funcionar", afirmou.
Do outro lado da mesa, Lindonor Peruzzo defende que preparar o sucessor exige confiança, investimento e metas claras, com acompanhamento do conselho. O sucessor precisa ter liberdade para tocar o negócio, com a responsabilidade de mostrar resultados e de honrar o que o fundador construiu. Muitas vezes isso ocorre em condições mais difíceis, sem ter a quem perguntar como fazer. E o sucedido precisa de fato se afastar. “Não adianta eu dizer que ele vai assumir a empresa e continuar no dia a dia dando as ordens”, afirmou.
Querer, organizar e pedir ajuda
Nas considerações finais, Rodrigo Garla reforçou que o tema precisa estar na agenda e que a governança instituída facilita a vida de todos, porque define quem pode entrar, quem não pode e como funciona a saída da sociedade. Sem essas regras, abre-se espaço para disputas que podem chegar à Justiça. À essa afirmação, Pecchiae acrescentou que a judicialização é um dos caminhos que mais encerram negócios familiares.
Garla advertiu ainda que é preciso contar com apoio externo, porque só a família, por mais bem-intencionada que seja, dificilmente consegue organizar essa pauta sozinha. E há um requisito que nenhuma consultoria substitui. É preciso querer.
Preparar o sucessor com método e buscar apoio externo ao longo do caminho estão entre os pontos destacados pelo Missão Gerações, uma iniciativa da SA+ em parceria com o Insper e a Nova School of Business & Economics. Exclusiva para o varejo alimentar, a iniciativa combina formação, experiências práticas e networking para apoiar profissionais na preparação para os desafios da sucessão e da gestão empresarial.
A Missão Gerações é a oportunidade de passar o bastão ao sucessor com a tranquilidade de que todas as etapas foram compreendidas e de que os novos desafios serão enfrentados com a dedicação que merecem.
As inscrições estão abertas. Para conhecer o programa, receber mais informações e saber como participar, entre em contato com a equipe da SA+, clicando aqui.
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