11/06/2026
DMA e BH: o que a maior transação recente do varejo mineiro revela sobre o futuro do setor
POR Ismael Jales
EM 11/06/2026

Foto: Divulgação
A integração de operações entre a DMA Distribuidora e o Supermercados BH figura entre os movimentos corporativos mais relevantes dos últimos anos no varejo alimentar. O negócio prevê a transferência de operações da DMA, 14ª colocada no ranking dos maiores varejistas do Brasil, para o grupo BH, atual 4º maior supermercadista do país. Segundo as empresas, a integração deverá resultar em uma operação próxima de 600 unidades e faturamento estimado em cerca de R$ 35 bilhões.
Recentemente, a DMA também vendeu suas unidades da bandeira Brasil Atacarejo na Paraíba para o grupo RedeCompras.
Embora as empresas não tenham detalhado publicamente a composição completa de todos os ativos envolvidos na transação, os números divulgados sugerem que uma parcela relevante da estrutura operacional da DMA está envolvida nas negociações anunciadas. O movimento indica uma transferência em larga escala de operações para os grupos compradores, marcando uma das mais relevantes reconfigurações recentes do varejo alimentar brasileiro. Diante da dimensão dos ativos negociados, o mercado acompanha os próximos passos da DMA e a forma como a companhia pretende reposicionar sua atuação após a conclusão das integrações anunciadas.
Apesar do fato de que a DMA não divulgou oficialmente qual será sua estratégia após a conclusão das transações, especialistas apontam para a possibilidade de um redirecionamento patrimonial focado na gestão de ativos imobiliários, o chamado Real Estate. De acordo com Ederson Varejo, profissional com mais de 28 anos de atuação no desenvolvimento e estruturação do setor varejista, a estratégia permite converter o risco operacional direto em renda passiva previsível.
"A operação gera risco diário. O imóvel gera renda passiva e valorização patrimonial. Quando uma empresa vende a operação e mantém o patrimônio imobiliário, ela transforma um negócio de alta complexidade em um fluxo previsível, que é o aluguel. A gente percebe que isso era uma tendência que já aconteceu nos Estados Unidos e parece que agora ganha força aqui no Brasil", explica.
O especialista acrescenta que o sufoco competitivo nas margens de lucro por loja costuma pesar nesse tipo de decisão empresarial. "O grupo percebeu a necessidade de competir em determinadas regiões exigindo investimentos muito elevados de logística, tecnologia, marketing e também de preço", contextualiza.
Choque cultural e os reflexos no bolso do consumidor
O desafio imediato da transição repousa na operação logística e na integração das equipes. A integração de bandeiras tradicionais como EPA e Mineirão exigirá um alinhamento operacional cuidadoso para minimizar riscos de rupturas e impactos na experiência do consumidor.
"A conversão de desenhos de lojas do tipo EPA, Mineirão e Brasil Atacarejo para as bandeiras do BH, da RedeCompras e de terceiros pode trazer um choque cultural. A cultura do EPA é bem diferente da cultura do BH. Já estive conversando com alguns profissionais da rede. Vai ter alguns desafios de mudança de layout e mudança da comunicação visual. Tudo isso precisa ocorrer sem interromper as vendas", adverte o mentor.
Para quem compra na ponta, Ederson Varejo prevê que os efeitos práticos da fusão tendem a se dividir em dois momentos distintos na prateleira. "No curto prazo, a gente percebe que o consumidor ganha. Porque esse novo operador que chega reforça o abastecimento e melhora o sortimento. Geralmente tem uma redução de preço em algumas categorias estratégicas. Agora, no médio e longo prazo, existe um ponto de atenção, na minha opinião. Porque se a consolidação acaba tendo a eliminação da concorrência regional, o mercado pode perder pressão competitiva", conclui.
O novo contexto de valuation do setor
A movimentação da DMA ilustra uma mudança profunda na própria maturidade do varejo brasileiro, que passou a recalibrar a forma como avalia o sucesso de uma operação. Segundo o especialista, o mercado corporativo passou a atribuir maior peso a indicadores de geração de caixa e rentabilidade.
"O varejo brasileiro está entrando em uma fase mais madura. Durante anos, crescer significava abrir mais lojas, ganhar mais território, aumentar faturamento. Hoje a gente vê que os investidores e os próprios empresários estão olhando outros indicadores, como ROI, geração de caixa, produtividade por m² e até rentabilidade por loja", avalia Varejo.
Essa transição altera diretamente o cálculo de valor de mercado das empresas em processos de fusão e aquisição. "O mercado está muito criterioso e, durante muito tempo, muitas negociações de lojas eram feitas com base no faturamento. Hoje, a pergunta é quanto caixa essa operação pode gerar. Uma loja que vende menos, mas tem caixa consistente, pode valer mais do que uma loja com faturamento alto e baixa rentabilidade. Acredito que essa é uma mudança que veio para ficar. Antes, o valuation estava muito ligado ao faturamento. Hoje, a geração de caixa e a rentabilidade têm um peso muito maior", pondera.
A consolidação dos impérios regionais
A reconfiguração das operações da DMA e a expansão do Supermercados BH reforçam uma tendência de concentração geográfica observada no varejo alimentar brasileiro. Em vez de grandes corporações com domínio pulverizado por todo o território nacional, o cenário atual aponta para o fortalecimento de lideranças regionais.
"Nós estamos caminhando para uma polarização regional. Não necessariamente veremos três ou quatro redes dominando o Brasil inteiro. Mas está muito claro que o império regional vai acontecer. A gente percebe isso pelo BH, que hoje domina Minas Gerais, sobretudo no interior, e pelo Grupo Mateus no Norte e Nordeste. Esses grupos possuem escala de compra, centro de distribuição, tecnologia, têm uma marca forte e a capacidade de investir em preço, o que tende a formar cinturões regionais de dominância", analisa o especialista.
A SA+ procurou a DMA, mas não obteve retorno até o momento da publicação desta matéria.
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