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Dois anos após as inundações, saiba como o varejo gaúcho adaptou o modelo de negócio e protegeu a operação

POR Ismael Jales

EM 29/04/2026

Unidade do Desco devastada pela enchente

Deco Atcado, bandeira do Grupo Imec que como um todo teve três lojas afetadas pela catástrofe Foto: Divulgação


Dois anos após as cheias que paralisaram o Rio Grande do Sul, o varejo alimentar gaúcho conclui um ciclo de reconstrução marcado pela superação de danos físicos e pela entrada em uma novo desafio: o demográfico   ainda uma consequência das enchentes. Com 85% das 380 lojas atingidas já em operação, o setor agora recalibra suas estratégias para lidar com o êxodo populacional e um endividamento das famílias que supera a média nacional, forçando uma revisão profunda nos planos de expansão até 2027.

A alta no faturamento de 2024, impulsionada por aportes governamentais e doações, deu lugar à racionalidade em 2026. Segundo dados da AGAS e da Nielsen, o faturamento nominal hoje é sustentado pela inflação, mas o volume por carrinho recuou 8% frente ao período pré-catástrofe.

Com o fim dos auxílios e a inadimplência em 46%, segundo o Serasa, o consumidor prioriza o "essencial do essencial". Esse cenário forçou o varejo a recalibrar o mix em tempo real: o foco migrou para categorias de giro rápido, perecíveis e rotisseria, atendendo a um cliente que prefere a compra diária para evitar desperdício e estocagem em orçamentos pressionados.

Para entender essa reconstrução, a SA+ conversou com lideranças que atuaram na linha de frente da crise. De redes familiares a gigantes estaduais, o diagnóstico é comum: o varejo gaúcho não apenas reabriu, mas se reinventou para operar sob incertezas climáticas e mudanças demográficas sem precedentes.


Tecnologia e crédito na reposição de estoques


Para garantir que apenas 15% das lojas permanecessem fechadas, o setor uniu inteligência de dados e solidariedade. A AGAS, por exemplo, desenvolveu um aplicativo de geolocalização que mapeou os danos em 380 unidades atingidas, servindo como "prova real" para que indústrias e fornecedores flexibilizassem prazos e crédito. "O aplicativo foi o elo de confiança necessário para que o crédito fluísse e o abastecimento não parasse", explica Chico Brust, gerente executivo da AGAS.


Imec adota estruturas removíveis e logística interestadual


Quinto maior faturamento do Rio Grande do Sul no ranking da AGAS, o Grupo Imec opera uma estrutura robusta com 32 unidades, divididas entre os supermercados Imec e a bandeira Desco Atacado.


Entre 2023 e 2024, a rede enfrentou três eventos climáticos sucessivos que testaram seu limite operacional: com a fábrica de um fornecedor estratégico submersa em Porto Alegre, o grupo articulou o envio de produtos de unidades de Santa Catarina e do Paraná para evitar o desabastecimento. Mais do que garantir as gôndolas, o Imec atuou na recuperação do entorno, financiando a pintura e a reconstrução de fachadas de pequenos varejistas vizinhos que foram devastados.


Volta as operações do Desco Atacado (Crédito: Divulgação)


Para o CEO do grupo, Fabiano Pivotto, a resiliência financeira foi o que permitiu reconstruir o equivalente a uma loja e meia e realizar intervenções críticas em outras unidades. "O capital que financiaria novas lojas foi redirecionado para a recuperação de ativos existentes", explica.

A estratégia para o futuro agora foca a engenharia de proteção. "Não é financeiramente viável elevar uma unidade a 12 metros de altura sem comprometer severamente a experiência de compra do cliente. Optamos por conviver com o risco de forma estratégica, realocando sistemas de refrigeração e toda a infraestrutura de TI para os pavimentos superiores. Consolidamos um modelo de operação tecnicamente removível, que é a resposta possível diante da atual conjuntura climática", conclui Pivotto.

Codebal prioriza perecíveis e inovação no Trade Marketing


Com mais de duas décadas de atuação, a Codebal consolidou sua marca como uma das operações mais tradicionais da Região Metropolitana e do Centro-Sul gaúcho. A rede, que opera unidades estratégicas em Eldorado do Sul, Guaíba e Tapes, teve 60% de sua estrutura comprometida durante as cheias.

"Foi a maior das catástrofes. Tivemos duas lojas totalmente destruídas; a unidade Codebal Center, em Eldorado, foi saqueada e ficou submersa por três metros de água", detalha Roberta Barreto, diretora administrativa.

O prejuízo de R$ 6 milhões exigiu uma reconstrução baseada em capital próprio e linhas de crédito. A retomada física foi acompanhada por uma mudança drástica no DNA comercial: com o mercado local saturado por doações de itens básicos, a rede redirecionou o mix para perecíveis e rotisseria, focando a conveniência de curto prazo.


Loja do Codebal que foi saqueda (Foto: Divulgação)


A rede também inovou na relação com a indústria ao converter R$ 100 mil em verbas de Trade Marketing de parceiros em vales-compra via "raspadinhas digitais", garantindo que o recurso circulasse na comunidade local. Entretanto, o cenário demográfico ainda impõe limites. "Com o êxodo de 20% da população em praças como Eldorado e o severo endividamento do consumidor gaúcho, mantemos o interesse em novas praças, mas a diretriz atual é de preservação. Postergamos grandes expansões para 2027 em favor de um posicionamento conservador", conclui Roberta.


Retorno as atividades do Codebal (Crédito: divulgação)



Center Shop utiliza CRM para mitigar esvaziamento do Centro


Operada pelo Grupo Bruneto, a rede Center Shop é referência em Porto Alegre há 30 anos com um modelo focado em lojas de vizinhança e conveniência. O impacto da crise foi centralizado: das 10 unidades da rede, as quatro localizadas no Centro Histórico — o coração comercial do grupo — foram submersas, causando uma queda imediata de 60% no faturamento e perdas de ativos que somaram R$ 20 milhões.

A retomada recorde, com lojas reabertas em apenas dez dias, não dependeu apenas de crédito, mas do que o gerente comercial Leandro Bruneto define como "patrimônio de confiança".

"O fato de termos 30 anos de pontualidade permitiu que 95% dos fornecedores atuassem como parceiros estratégicos na recomposição de estoques e dilatação de prazos", explica. A crise serviu para uma limpeza de portfólio, eliminando itens ociosos e consolidando uma operação extremamente enxuta.

O grande diferencial competitivo na reconstrução foi o uso de dados. Com o Clube Center Shop rastreando 70% das vendas e uma base de 150 mil clientes cadastrados, a rede utilizou o CRM para fidelização direta via WhatsApp e iFood, mitigando o esvaziamento físico do Centro de Porto Alegre.


Operação comprometida/ Volta às operações (Foto: Divulgação) 


Para 2026, o foco sai da expansão física e entra na monetização de audiência: "Nossa energia estará voltada para a eficiência interna e para o avanço em Retail Media, aproveitando a fidelidade do público que transita em nossas lojas diariamente", conclui Bruneto.


Gestão de caixa e prontidão como modelo de sobrevivência


O varejo alimentar gaúcho chega a 2026 com um modelo de sobrevivência baseado na prontidão. Com o esgotamento das apólices de seguro para catástrofes, a estratégia foca o rigor do fluxo de caixa e a organização documental, ativos decisivos para o apoio da indústria. Para o supermercadista, a operação mais assistida do que nunca e a resposta rápida tornaram-se as únicas salvaguardas possíveis diante da nova realidade climática e demográfica do estado.

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TAGS:Varejo Gaúcho,Varejo
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