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Reforma Tributária pode pressionar o caixa no curto prazo e exige nova disciplina financeira do varejo

POR Barbara Fernandes

EM 06/05/2026

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Foto: Adobe Stock


A Reforma Tributária deve trazer mudanças importantes para o fluxo de caixa no varejo alimentar, com efeitos que vão além da simplificação do sistema. Embora o novo modelo prometa maior eficiência e previsibilidade no longo prazo, o período de transição até 2033 exige atenção redobrada, especialmente por causa de possíveis descasamentos entre pagamento de tributos e aproveitamento de créditos.

 

Um dos pilares da reforma é a não cumulatividade plena, que permite recuperar, como crédito, os tributos pagos ao longo da cadeia. Isso elimina o chamado efeito cascata e tende a tornar a carga tributária mais transparente.

Na prática, o varejista passa a entender melhor quanto está pagando de imposto e consegue planejar com mais precisão suas finanças.

Além disso, há uma expectativa de redução de distorções como a antecipação de tributos, comum no modelo atual, especialmente no ICMS. Hoje, em muitos casos, empresas pagam imposto antes mesmo de realizar a venda, o que pressiona o capital de giro. Com o novo sistema, a tendência é que o pagamento esteja mais alinhado ao consumo, o que pode liberar caixa ao longo do tempo.

 

Apesar desses avanços, a transição entre os modelos traz um desafio relevante. Durante esse período, empresas terão que conviver com dois sistemas ao mesmo tempo, o que pode gerar desequilíbrios temporários no caixa. Isso acontece porque o direito ao crédito no novo modelo depende do efetivo pagamento do imposto na etapa anterior da cadeia.

 

“Existe um ganho estrutural no longo prazo, mas o caminho até lá pode gerar pressão no caixa. Quem não se planejar pode enfrentar falta de recursos no curto prazo”, afirma Vanderlei Goulart, diretor-presidente da Meta Assessoria Empresarial.

 

Na prática, isso significa que o varejista pode ter que pagar impostos antes de conseguir utilizar os créditos correspondentes. Esse efeito tende a ser mais visível nos primeiros meses de cada ano durante a transição.

 

“Hoje, quando a empresa compra uma mercadoria, ela já consegue aproveitar o crédito praticamente de forma imediata. No novo modelo, esse crédito só aparece depois que o imposto é efetivamente pago na etapa anterior. Isso pode fazer com que, em determinados momentos, o varejista tenha mais imposto a pagar e menos crédito para compensar”, explica Goulart.

 

Segundo o especialista, esse descompasso tende a se concentrar especialmente nos meses iniciais de cada ciclo anual de implementação da reforma, quando as alíquotas do novo modelo passam a ser ampliadas gradualmente. Nesses períodos, é comum que o volume de créditos disponíveis seja menor, enquanto os débitos tributários já começam a crescer.

 

“O varejista entra com menos crédito disponível e, ao mesmo tempo, com mais imposto para recolher. Depois, ao longo dos meses, isso tende a se equilibrar”, diz.

 

Esse cenário não significa necessariamente que todas as empresas precisarão de mais capital, mas aumenta a importância do planejamento financeiro. Negócios com menor folga de caixa ou sem controle detalhado podem sentir mais rapidamente os impactos.

 

“Não é automático que a empresa precise de mais capital de giro, mas ela precisa entender o próprio fluxo de caixa. Fazer simulações com base no novo modelo é fundamental para evitar surpresas”, afirma Goulart.

 

No varejo alimentar, onde o giro de produtos é alto e as margens são reduzidas, qualquer variação no fluxo de caixa pode ter impacto direto na operação. A necessidade de pagar fornecedores, manter estoques e sustentar o funcionamento das lojas torna o equilíbrio financeiro ainda mais sensível.

 

Outro ponto importante é que os benefícios da reforma sobre o capital de giro tendem a ser mais percebidos no longo prazo e, em alguns casos, de forma mais intensa na indústria do que no varejo. Para o varejista, o ganho existe, mas vem acompanhado de um período de adaptação que exige maior disciplina na gestão.

 

Diante desse cenário, a integração entre as áreas fiscal, financeira e operacional se torna essencial. A capacidade de acompanhar entradas e saídas com precisão, projetar cenários e ajustar decisões rapidamente será determinante para atravessar a transição sem comprometer a liquidez.

 

No fim, a Reforma Tributária não apenas muda a forma de pagar impostos, mas também redefine a maneira como o caixa deve ser gerido. Mais do que nunca, entender o timing dos créditos e débitos será fundamental para manter a saúde financeira em um ambiente mais previsível no futuro, mas mais exigente no presente.


Essa matéria faz parte de uma série que explora os principais pontos da Reforma Tributária. Confira todas as matérias abaixo: 

Reforma Tributária: o que é e por que ela muda o jogo para o varejo alimentar


Reforma Tributária: especialista indica os primeiros passos para iniciar a implementação das mudanças

Esses serão os 5 maiores impactos da Reforma Tributária para o varejo alimentar


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TAGS:Gestão e negócios, Reforma Tributária
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Barbara Fernandes

Repórter

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