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Setor aciona governo após apostas e dívidas derrubarem vendas da cesta básica

POR Ismael Jales

EM 05/05/2026

Agencia Brasil (Bets)

Foto: Bets (Agência Brasil) 


O avanço descontrolado das apostas online (as famosas bets) e o superendividamento estão drenando o orçamento das famílias brasileiras de baixa renda, causando uma queda aguda no consumo de alimentos essenciais. Segundo dados da ABAAS (Associação Brasileira dos Atacarejos), o desvio de até R$ 252 bilhões anuais para os jogos fez com que o dinheiro antes destinado à cesta básica evaporasse.


O fenômeno motivou um apelo urgente ao governo federal para que o problema seja enfrentado como uma crise de saúde pública, nos mesmos moldes do histórico combate ao tabagismo.


O efeito K e o consumo partido


Na última segunda-feira, 04, a cúpula do setor esteve reunida com Geraldo Alckmin, vice-presidente da República. No encontro, que contou com a presença de Belmiro Gomes (CEO do Assaí), Renato Costa (Presidente da Friboi) e Roberto Perosa (Presidente da ABIEC), foi apresentado o documento "A roda da Economia está travando".


A SA+ teve acesso aos dados em que a ABAAS argumenta que o consumo brasileiro se partiu em dois: uma expansão nos canais voltados à alta renda e retração severa na classe C, o chamado "efeito K".


O dado mais alarmante do documento revela o impacto do crédito consignado e das dívidas sobre os colaboradores do próprio setor. Em um levantamento interno, um em cada quatro funcionários de um atacarejo ficou com o "salário zerado" devido a empréstimos e compromissos financeiros.


Crise de renda, não de preços


Embora itens da cesta básica tenham ficado mais baratos em 2025 — com quedas expressivas no arroz (-37,1%), leite (-16,1%) e feijão (-10,2%) — o consumo da baixa renda recuou 9,6%. Em entrevista exclusiva à SA+, Paulo Brenha, executivo e autor do livro "Varejo com propósito e resultado", explica que o problema deixou de ser inflação.


"Quando itens essenciais recuam, mas o consumo cai, o entrave passa a ser a renda disponível. As apostas já se tornaram um dos principais drenos do orçamento doméstico", afirma Brenha. O especialista aponta que o consumidor deixou de planejar a compra do mês para sobreviver no curto prazo, reduzindo categorias e postergando decisões de compra.


O raio-x do endividamento em 2026

O Brasil vive um recorde histórico de inadimplência, com 81,3 milhões de adultos negativados. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência atribuída especificamente às apostas retirou R$ 143 bilhões do varejo.

O cenário atual mostra um país dividido por números críticos:


Alcance: Existem 25 milhões de CPFs únicos cadastrados em plataformas autorizadas.


Gasto: Os brasileiros gastam aproximadamente R$ 30 bilhões por mês com apostas.


Perfil: O impacto é maior entre homens de baixa renda (até 5 salários mínimos) e pessoas acima de 35 anos.


Como resposta, o novo programa Desenrola Brasil incluiu uma trava inédita: quem aderir à renegociação de dívidas fica proibido de apostar em sites de bets por um ano, com bloqueio realizado via CPF.


O paralelo com o tabagismo


Para o setor, bloquear sites ilegais é insuficiente para resolver um problema comportamental alimentado por crédito fácil e publicidade agressiva. Paulo Brenha defende uma resposta integrada em três frentes: regulação firme, educação financeira e tratamento como saúde pública.

"O Brasil não venceu o tabagismo apenas com imposto, mas com campanha contínua, restrição de publicidade e mudança cultural. Com as bets, o caminho precisa ser parecido. Não é moralismo, é proteção da economia real, porque a roda do varejo só gira quando o dinheiro chega ao consumo essencial", conclui o especialista à SA+.

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TAGS:bets,Atacarejo, Atacado,Varejo
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