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06/07/2026
Para além do abastecimento, arquitetura ajuda a transformar supermercados em locais em que o cliente quer ficar e voltar
POR Giovanna Cazuza
EM 06/07/2026
Corredores do Asun Pontal / Foto: Divulgação
Ir ao supermercado já não significa apenas abastecer a despensa. Cada vez mais, as empresas do varejo alimentar estão investindo em cafeterias, restaurantes, áreas gourmet, espaços para eventos e ambientes voltados à permanência dos clientes. A mudança acompanha um novo comportamento do consumidor, que busca conveniência, praticidade e experiências capazes de tornar a rotina mais agradável.
Segundo Julio Takano, CEO da KT Arquitetura de Negócios, isso vem mudando a forma como os projetos arquitetônicos são concebidos. "O varejo mundial está vivendo uma transformação profunda. Durante décadas as lojas foram projetadas para expor produtos. Hoje elas são projetadas para criar experiências, resolver problemas e construir relacionamento."

Rotisseria dentro da loja Dalben Supermercados, layout realizado pelo escritório KT Arquitetura de Negócios/ Foto: Divulgação
O empresário ainda comenta que o consumidor atual deseja resolver rapidamente suas necessidades, mas também valoriza espaços que ofereçam bem-estar e conexão emocional.
"O varejo alimentar, em especial, está se transformando em um terceiro lugar. Ou seja, um ambiente que não é casa nem trabalho, mas onde as pessoas desejam permanecer. O futuro não está em vender mais produtos. Está em gerar mais motivos para visitar a loja", destaca Julio Takano, CEO da KT Arquitetura de Negócios.
Alimentação ganha protagonismo
Entre as principais tendências está a expansão das áreas dedicadas ao food service. Cafeterias, padarias com espaço para consumo, rotisserias, restaurantes, pizzarias, culinária japonesa e opções de refeições prontas passaram a ocupar posição estratégica dentro dos supermercados.
Para Kátia Bello, CEO do escritório da Opus Design, esses ambientes cumprem um papel que vai além da venda de alimentos. "A expansão das áreas de alimentação dentro do supermercado, com soluções de comida pronta, tem o objetivo de facilitar a vida do cliente e gerar vendas adicionais. Esses espaços são projetados não apenas para acomodar novos itens, mas principalmente para criar novas formas de consumo e novas maneiras das pessoas interagirem com o espaço em diferentes momentos do dia."
Ela cita como exemplo a nova geração de lojas do Muffato Alphaville, em Londrina, onde a área gastronômica foi completamente redesenhada. "O layout proporciona uma experiência imersiva de alimentação, inovando também nas opções: variedades de comida japonesa preparadas na hora, massas artesanais de fabricação própria, carnes direto do grill e pizzas personalizadas, tudo preparado na frente do cliente. Essa configuração permite aumentar as visitas do mesmo shopper na loja e aumentar o tíquete médio."
Interior da loja Super Muffato, layout feito pelo escritório da Opus Design / Foto: Divulgação
Da compra rápida ao espaço de convivência
A arquiteta Vera Zaffari, fundadora da VZ&Co, ressalta que o movimento acompanha um consumidor que quer mais do que praticidade e justamente por isso "uma das principais tendências é a ampliação de áreas voltadas à conveniência, alimentação pronta para consumo e experiência do cliente." Mas ela também reforça que as áreas tradicionais estão sendo reinventadas.
"O supermercado deixa de ser apenas um local de abastecimento e passa a assumir um papel cada vez mais próximo de um centro de conveniência, gastronomia e relacionamento com a comunidade", conta Vera Zaffari, fundadora da VZ&Co
Esse conceito aparece em projetos como o Asun Pontal, em Porto Alegre, onde cafeteria, bar e a área de "Pegue & Leve" foram incorporados ao layout para atender diferentes missões de compra, desde quem faz a compra do mês até quem busca apenas um café ou uma refeição rápida.
Setor "Pegue e leve" dentro da loja Asun, design feito pelo escritório VZ&Co / Foto: Divulgação
Consumidor no centro do projeto
As mudanças não se limitam à criação de novos ambientes. A própria lógica do layout passou a considerar o comportamento do consumidor. Para Ricardo e Umberto Bragaglia, diretores do escritório Bragaglia, o consumidor contemporâneo busca soluções rápidas para o dia a dia, o que levou os supermercados a criarem ambientes mais intuitivos, setores melhor sinalizados e maior integração entre os espaços de compra e serviços.
"O objetivo é transformar a compra em uma experiência mais agradável, rápida e personalizada", destacam os diretores.
Na Opus Design, o planejamento começa pela compreensão do comportamento dos clientes. "A principal tendência é colocar o cliente no centro das decisões: pensar em como ele circula, como se sente e qual experiência se quer proporcionar", afirma Kátia. Ela lembra que estudos de neuroarquitetura mostram que ambientes excessivamente carregados podem gerar estresse e reduzir o tempo de permanência na loja.

Interior da Loja Sonda em São Caetano do Sul, design feito pelo escritório de arquitetura Bragaglia / Foto: Divulgação
Experiência impulsiona resultados
Além de fortalecer o relacionamento com o consumidor, a arquitetura também passou a ser uma ferramenta de negócios. Segundo Julio Takano, criar espaços de convivência significa aumentar a frequência de visitas, estimular compras por impulso e diferenciar a loja da concorrência. "A loja do futuro não será lembrada pelo que vende. Será lembrada pelo que faz as pessoas sentirem."
Para a Bragaglia Arquitetos, essa evolução representa uma integração entre arquitetura, estratégia comercial e experiência do cliente. "A loja atual precisa vender mais, operar melhor e criar vínculo emocional com o consumidor."
Ao reunir conveniência, alimentação, serviços e experiências em um único ambiente, o supermercado amplia seu papel na rotina das pessoas. Mais do que abastecer a casa, passa a oferecer motivos para voltar, mesmo quando a lista de compras está vazia.

Setor "Fiambreria" dentro da loja Asun, design feito pelo escritório VZ&Co / Foto: Divulgação
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