22/05/2026
Como o Mercadona virou um case de eficiência no varejo europeu
POR Reportagem SA+ Conteúdo
EM 22/05/2026

Foto: Divulgação
Em um momento em que os supermercados brasileiros têm margens cada vez mais comprimidas e um cenário de consumo em queda, o modelo da espanhola Mercadona oferece sinais relevantes para o varejo alimentar. Enquanto muitas redes globais investiram em formatos excessivamente complexos, ambientações cenográficas e expansão de sortimento, a empresa espanhola construiu sua liderança apostando no oposto: simplicidade operacional, eliminação de barreiras na jornada de compra e fortalecimento de marcas próprias capazes de gerar fidelidade real.
Foco na previsibilidade e fim dos obstáculos para o cliente
Líder isolada do varejo alimentar espanhol e em plena expansão em Portugal, a Mercadona tornou-se um dos principais casos de eficiência operacional da Europa ao transformar simplicidade em vantagem competitiva. Enquanto parte do varejo global apostou na hipercomplexidade, a rede comandada por Juan Roig consolidou um modelo centrado na previsibilidade, na velocidade da compra e na eliminação de obstáculos para o consumidor.
O núcleo da estratégia está na engenharia do sortimento. Em vez de ocupar as gôndolas com dezenas de marcas concorrentes para o mesmo item, a empresa trabalha com uma curadoria enxuta e altamente racionalizada. O consumidor encontra menos opções, mas convive com forte presença das marcas próprias da companhia — como Hacendado, voltada para alimentação, e Deliplus, focada em higiene e cosméticos.
Ao longo dos anos, essas marcas deixaram de ser percebidas apenas como alternativas baratas e passaram a ocupar posição de confiança entre os consumidores espanhóis, especialmente pela combinação entre qualidade percebida, consistência e preço competitivo.
Disciplina com ritmo de indústria
Essa lógica operacional permitiu à companhia aumentar produtividade, reduzir desperdícios e simplificar a reposição nas lojas. Analistas do setor frequentemente apontam que a estrutura da Mercadona funciona com disciplina próxima à de uma operação industrial. Da logística automatizada à padronização rigorosa do layout das unidades, praticamente toda a cadeia foi desenhada para reduzir complexidade operacional e ganhar eficiência.
Embora seja frequentemente associada a preços baixos, a força atual da Mercadona parece estar menos no desconto puro e mais na previsibilidade operacional, na confiança das marcas próprias e na simplificação da jornada de compra. Em uma Europa pressionada pela inflação nos últimos anos, a rede conseguiu reforçar sua fidelidade justamente ao transmitir clareza e consistência em um ambiente de consumo mais cauteloso.
Evolução nos perecíveis e prontos para consumo
As seções de perecíveis ganharam papel importante nessa evolução. A companhia modernizou lojas, ampliou áreas de padaria, fortaleceu soluções prontas para consumo imediato e investiu em expositores de hortifrúti mais eficientes. O ambiente permanece funcional, mas mais refinado — desenhado para tornar as compras cotidianas rápidas e fluidas.
A empresa já enfrentou desafios como questionamentos relacionados à pressão sobre fornecedores, ao nível de centralização operacional e à redução de variedade em determinadas categorias. Em alguns momentos, consumidores também apontaram perda de competitividade em preços frente a redes discount presentes no mercado espanhol.
Ainda assim, a fidelidade dos clientes permanece elevada. Para boa parte dos consumidores da Península Ibérica, o principal diferencial da Mercadona está justamente na eliminação do excesso. Em um varejo frequentemente marcado por promoções confusas, excesso de SKUs e experiências de compra cansativas, a simplicidade tornou-se um diferencial competitivo poderoso.
O avanço da companhia em Portugal reforça que esse modelo ainda possui espaço para expansão. E, em um setor cada vez mais pressionado por produtividade, eficiência logística e rentabilidade operacional, o mercado europeu acompanha atentamente os próximos passos da varejista espanhola.
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