24/06/2026
Custos operacionais ameaçam o lucro do varejo alimentar: a estratégia de Carrefour e Grupo Mateus para blindar as margens com eficiência energética
POR Ismael Jales
EM 24/06/2026

Foto: Divulgação/ Montagem: SA+
A gestão de energia no varejo alimentar brasileiro vive uma mudança estrutural de prioridades. O período em que a estratégia se resumia a migrar para o Mercado Livre de energia para negociar tarifas mais baratas ficou para trás. Com essa transição amplamente consolidada no setor, a verdadeira batalha pelo lucro operacional agora é travada dentro dos estabelecimentos.
Em um mercado de margens espremidas, o gargalo estratégico migrou para o chão de loja. Ronaldo Alexandre Silva, head comercial de varejo da GreenYellow Brasil, especialista em eficiência energética e geração solar, aponta que o tamanho do problema é expressivo.
"Em muitos casos, encontramos desperdícios entre 10% e 30% do consumo total sem necessidade de grandes intervenções estruturais, sem comprometer a experiência do consumidor ou a segurança alimentar", projeta.
Para entender como o setor busca estancar esse impacto financeiro direto na operação e conter o desperdício oculto, a SA+ ouviu duas das maiores potências do país, que juntas faturam mais de R$ 130 bilhões: o Grupo Carrefour Brasil e o Grupo Mateus. As duas companhias contam que a eficiência atual depende do uso de sensores de Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial e fórmulas matemáticas de gamificação para conter o erro humano.
Pressão nos balanços joga luz sobre o consumo interno
No varejo alimentar, a energia elétrica é a segunda maior despesa operacional, ficando atrás apenas da folha de pagamento dos funcionários. Qualquer oscilação na conta de luz é repassada para as despesas operacionais, afetando o lucro final distribuído aos acionistas.
A urgência em olhar para a eficiência interna ganhou contornos numéricos claros nos balanços financeiros recentes. No primeiro trimestre de 2026, o Grupo Mateus registrou um lucro líquido de R$ 213 milhões, o que representou uma queda de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Ebitda da companhia também sofreu retração, acompanhado pelo recuo da margem Ebitda para 4,3%. Durante a divulgação dos resultados do 1º
trimeste/2026 ao mercado, a diretoria apontou que a pressão sobre a rentabilidade veio do avanço das despesas operacionais.
A empresa explica que, uma vez mitigada a volatilidade dos preços externos, a prioridade máxima passa a ser o controle do que acontece dentro de cada bandeira.
"Com a energia contratada em condições mais previsíveis e competitivas, o foco estratégico passa a estar cada vez mais concentrado na gestão eficiente do consumo dentro das operações. Por isso, o Grupo Mateus investe continuamente em tecnologia, monitoramento e conscientização das equipes para eliminar desperdícios", destaca Sandro Oliveira, vice-presidente comercial, operação e logística do Grupo Mateus.
A liderança do grupo maranhense reforça que a eficiência energética passou a ser vista pela companhia com rigor analítico na ponta.
"A eficiência energética é tratada pelo Grupo Mateus como uma frente estratégica de gestão operacional e disciplina financeira. Mais do que uma medida de controle de despesas, trata-se de uma prática permanente de gestão, alinhada ao compromisso da companhia com eficiência, sustentabilidade e geração de valor de longo prazo", complementa Sandro Oliveira.
IA aplicada ao shelf life e ao fluxo de caixa
A digitalização dos processos virou a principal engrenagem para monitorar o que acontece nos balcões de congelados e ilhas de perecíveis. No Grupo Mateus, a instalação de sensores conectados e automação transformou a rotina de manutenção, que deixou de ser reativa para se antecipar aos problemas mecânicos.
"A digitalização dos processos operacionais tem ampliado a capacidade do Grupo Mateus de monitorar ativos críticos em tempo real", detalha Sandro Oliveira. O executivo aponta que o uso de inteligência aplicada à gestão garante maior controle sobre variáveis operacionais, o que resulta em "redução de riscos, prevenção de perdas e aumento da disponibilidade dos equipamentos."
Essa estabilização milimétrica do frio gera um dividendo comercial imediato: a extensão do shelf life (tempo de prateleira) das mercadorias de alto valor, como carnes e laticínios. Sob a ótica de engenharia da GreenYellow, a stabileza térmica blinda o estoque contra quebras ocultas.
"O frio alimentar deixou de ser apenas uma necessidade operacional para se tornar uma ferramenta de geração de valor", pondera Ronaldo Alexandre Silva. Segundo ele, manter a constância térmica nas gôndolas reduz os índices de descarte de produtos e melhora a experiência de compra do cliente.
Como fechar a conta: O modelo de EaaS
O grande entrave para o supermercadista de médio e grande porte sempre foi o custo de trocar compressores e balcões antigos. Imobilizar capital próprio (Capex) em infraestrutura elétrica significa tirar dinheiro da expansão física e da abertura de novas lojas.
Para resolver esse dilema financeiro, o mercado consolidou o modelo de Energy as a Service (EaaS). Funciona como uma assinatura de eficiência: uma empresa parceira investe na modernização tecnológica da loja do varejista e recebe de volta um percentual da economia gerada na própria conta de luz ao longo do contrato.
A lógica desonera o balanço das companhias e traz previsibilidade orçamentária. Na visão de Ronaldo Alexandre Silva, a eficiência energética precisa se traduzir em crescimento sustentável e previsibilidade para o ecossistema do varejo alimentar, tratando a energia como um ativo estratégico de geração de valor para o negócio, e não mais como uma despesa fixa incontrolável.
Soluções de abastecimento: contratos de longo prazo e usinas solares
Para mitigar os riscos de tarifas elevadas antes que a energia chegue ao chão de loja, o Grupo Carrefour Brasil equacionou o abastecimento de sua malha nacional por meio de duas soluções distintas, mapeadas de acordo com o tamanho de cada filial.
Nas operações de grande porte elegíveis ao Mercado Livre, como os galpões do Atacadão, o Sam's Club e os hipermercados, a rede migrou praticamente 100% das unidades. A estratégia consistiu em firmar contratos de longo prazo (PPAs) diretamente com geradoras de energia solar e eólica. A medida garante tarifas mais baratas e previsíveis, blindando os balanços contra os picos gerados por bandeiras tarifárias em épocas de seca.
Já para o gargalo das lojas de proximidade e formatos menores, como o Carrefour Express, que não possuem demanda técnica para acessar o Mercado Livre, a solução foi a geração distribuída. A varejista utiliza o fornecimento vindo de usinas solares remotas terceirizadas para injetar créditos de energia na rede e abater o consumo dessas filiais.
Gamificação e a matemática dos muitos Brasis no Carrefour
Porém, mesmo a tecnologia mais avançada depende da disciplina operacional no dia a dia. A consultoria alerta que o comportamento humano na ponta ainda dita a eficiência real dos projetos instalados.
"Detalhes simples como portas de câmaras abertas indevidamente, ajustes incorretos de temperatura, falhas de rotina operacional e ausência de cultura energética podem comprometer boa parte dos ganhos obtidos com investimentos em engenharia", alerta Ronaldo Alexandre Silva.
Ciente desse desafio, o Grupo Carrefour Brasil estruturou uma gestão sob o comando de Marcelo Poli, diretor de manutenção e construção na companhia, que abrange a totalidade de sua operação nacional multiformato integrando as marcas Atacadão, Sam's Club e os hipermercados. A rede implementou uma plataforma de gamificação focada no trabalho em equipe dos times de loja ao redor do país para engajar os funcionários através do bolso.
"Uma das iniciativas que investimos foi em uma espécie de 'competição' entre as lojas. A partir dos indicadores de consumo, diariamente, os gerentes das unidades recebem um relatório que indica, em dinheiro, o quão cada loja está desperdiçando e quais são as lojas com as melhores práticas de eficiência energética. Essa estratégia estimula a melhoria entre as equipes, principalmente, por reforçar o espírito competitivo que acompanha a operação de forma natural", revela Marcelo Poli.
Como a operação do grupo está pulverizada por regiões de características climáticas e operacionais completamente distintas, a matemática foi utilizada para garantir a equidade da disputa e permitir uma comparação justa entre os formatos.
"Desenvolvemos uma equação que leva em consideração o consumo, tamanho da loja, horas de funcionamento e o clima. Com essas informações, somando também os percentuais de consumo de refrigeração, ar-condicionado e demais cargas, conseguimos comparar as lojas entre si para entender quais são as mais eficientes, sendo aprendizados para a companhia como um todo", detalha Poli.
Como reflexo direto dessa gestão eficiente e dos investimentos realizados no último ano, a rede já conseguiu reduzir em cerca de 4% o seu consumo de energia em comparação a 2024.
Lojas Greenfield: a eficiência energética desenhada na prancheta
Nas inaugurações mais recentes do varejo de alimentos, o foco estratégico mudou. Em vez de corrigir os gargalos de estruturas antigas, o setor agora aposta na engenharia nativa voltada para a eficiência. É o conceito das chamadas lojas greenfield, unidades construídas do zero, onde a sustentabilidade econômica e ambiental é integrada desde o primeiro traço do projeto.
Essas novas plantas saem do papel priorizando a arquitetura bioclimática. Ao otimizar o uso da luz natural e reduzir a carga térmica do ambiente, ou seja, o calor interno, as lojas diminuem drasticamente a necessidade de ar-condicionado e refrigeração forçada. Além disso, os projetos já nascem com a infraestrutura mecânica e elétrica pronta para receber sistemas de baterias para armazenamento de energia (BESS, em inglês). Essa tecnologia permitirá que as redes armazenem energia barata para consumi-la nos horários de pico, escapando das tarifas mais caras do sistema elétrico nacional.
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