07/05/2026
Mães no varejo alimentar: entre metas, jornadas múltiplas e liderança
POR Giovanna Cazuza
EM 06/05/2026

Foto: Divulgação
Em um setor marcado por alta competitividade, metas agressivas e rotinas intensas, mulheres vêm redesenhando o papel da liderança e da operação no varejo brasileiro. À frente de grandes redes, muitas delas com filhos conciliam a pressão por resultados com a responsabilidade da maternidade e, nesse processo, também impulsionam mudanças culturais dentro das empresas. Conheça um pouco da trajetória com da Fernanda Dalben, Van Fernandes e Jocy Astolphi Cassimiro.
Do chão de loja aos 14 anos a diretora de marketing e trade marketing

Para Fernanda Dalben, mãe de João, de 2 anos, e diretora de marketing e trade marketing estratégico do Dalben Supermercados, a trajetória no varejo alimentar começou cedo, passando pelo chão de loja com apenas 14 anos até chegar à liderança. E a maternidade impactou profundamente sua forma de atuar.
“A maternidadete traz um olhar mais humano, mais empatia, paciência e organização. Isso se reflete na tomada de decisões e na liderança. Me tornei mais eficiente, mais atenta e mais proativa”, afirma.
A executiva também destaca a evolução na gestão do tempo. “Quando se é mãe, a jornada é dupla ou tripla, e o tempo se torna ainda mais valioso.” Apesar de contar com uma rede de apoio estruturada, ela ressalta que nunca quis "terceirizar" seu papel como mãe.
A vivência pessoal também ampliou sua leitura sobre o comportamento do consumidor. A partir disso, Fernanda liderou a criação de um espaço voltado ao público infantil dentro das lojas do Dalben, pensado para mães e bebês. “Desenvolvemos a ambientação como um quarto de bebê, considerando toda a jornada da mãe no PDV. Quando eu estava amamentando, sugeri incluir café descafeinado na seção de fraldas. Foi uma mudança simples, mas as vendas cresceram muito”, relembra.
Ela também aponta a pressão enfrentada pelas mulheres no pós-maternidade. “Existe uma expectativa de que a performance seja a mesma, mas a realidade muda. A disposição cai, especialmente nos primeiros meses e principalmente para quem não tem rede de apoio.”
Van conciliou o sonho de transformar seu supermercado em uma grande rede com o desejo de ser mãe

Fundadora e presidente do Grupo Vanguarda, que reúne as bandeiras Carvalho Super e Carvalho Mercadão, Van Fernandes é mãe de Reginaldo Júnior, de 34 anos, e Danilo Carvalho, de 40. Para ela, conciliar maternidade e liderança trouxe sensibilidade sem abrir mão da firmeza. “Ser mãe me fez entender que por trás de cada colaborador existe uma história, um limite e um sonho. Passei a decidir não só pelo resultado, mas pelo impacto humano. Liderar deixou de ser apenas cobrar — virou cuidar, desenvolver e sustentar.”
Van Fernandes afirma que o maior desafio sempre foi lidar com o tempo. “Não existe equilíbrio perfeito. Há uma culpa silenciosa: quando eu estava no trabalho, pensava nos filhos; quando estava com eles, sabia que havia uma empresa inteira dependendo de mim. Aprendi que equilíbrio não é dividir tudo igualmente, mas está inteira onde estou.”
Sua experiência pessoal também influencia diretamente sua visão de negócio. “Sou consumidora antes de empresária. Sei o que falta na prateleira porque já senti falta. Entendo o valor do preço justo, da qualidade e da conveniência. Minha vida me conecta com quem compra.”
A executiva destaca ainda aprendizados importantes trazidos pela maternidade, como saber delegar, confiar e formar equipes fortes. “Desenvolvi paciência, leitura de comportamento, capacidade de antecipar problemas e resistência emocional. Mãe não desiste fácil — e isso, no varejo, faz toda a diferença.” Ela também chama atenção para a desigualdade de cobrança entre homens e mulheres. “A mulher ainda precisa provar mais, justificar mais e se dividir mais. A maternidade expõe sua força, mas também aumenta as expectativas sobre ela. Eu transformei isso em motivação.”
De compradora a CEO: como Jocy equilibrou a maternidade com a ascensão na carreira

Com uma longa trajetória no setor supermercadista, passando por redes como Peri, Red e Violeta, Jocy Astolphi Cassimiro, hoje CEO da Rede Plus Supermercados, viveu de perto os desafios de conciliar carreira e maternidade. Quando engravidou, era a única mulher na área de compras.
Quando o filho tinha apenas 1 ano, precisou escolher entre permanecer na função ou assumir um novo desafio, praticamente sem o apoio de uma equipe. Optou por crescer na carreira e assumiu a gerência comercial, liderando diferentes departamentos. “Entrava às sete da manhã e, muitas vezes, saía às nove da noite. Foi a fase mais difícil”, conta.
Ela também destaca como a maternidade transformou sua postura profissional. “Em ambientes muito masculinos, a gente acaba se adaptando a esse perfil. Mas a maternidade traz maturidade, mais flexibilidade e compreensão. Você passa a entender necessidades que muitos homens nunca vão vivenciar.”
Mãe solo, Jocy conta com o apoio da irmã, mas reconhece os desafios da ausência. “Meu filho, Rafael, hoje com 13 anos, cobra minha presença. Há alguns anos, comecei a participar de grupos femininos para trocar experiências e entender que está tudo bem não dar conta de tudo. Isso fez a diferença.”
Diversidade no setor já é uma realidade
As três executivas concordam que o setor começa a se adaptar a uma realidade mais diversa. Fernanda destaca que o público dos supermercados é plural, e isso exige equipes preparadas para atender diferentes perfis. Já Jocy observa um cenário inédito, com até cinco gerações convivendo no ambiente de trabalho, o que amplia os debates e desafios. Van, por sua vez, avalia que ainda há resistência, especialmente em relação às mulheres que acumulam múltiplos papéis. “Diversidade não é discurso, é necessidade. Quem não entender isso vai ficar para trás.”
Dados do Ministério do Trabalho mostram que as mulheres representam cerca de 50% da força de trabalho no varejo brasileiro. No entanto, essa presença diminui à medida que se avança na hierarquia corporativa.
Para as mães no varejo, os desafios são ainda mais intensos. Além das longas jornadas e horários irregulares — incluindo fins de semana e datas comemorativas —, muitas ainda carregam a maior parte das responsabilidades domésticas. Apesar disso, cresce o número de mulheres com filhos em cargos de liderança. Muitas relatam que a maternidade fortaleceu habilidades essenciais no ambiente corporativo, como gestão de tempo, empatia e tomada de decisão sob pressão.
Embora o debate sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional tenha avançado, políticas de flexibilidade ainda são limitadas no setor. Funções operacionais exigem presença física, o que dificulta a adoção de modelos híbridos ou jornadas mais adaptáveis. Mesmo assim, algumas empresas já começam a implementar iniciativas como escalas mais flexíveis, apoio no retorno da licença-maternidade e programas de desenvolvimento voltados para mulheres.
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