21/06/2026
Em meio a comunicado de unificação de bandeiras em PE e PB, Grupo Mateus enfrenta teste de maturidade e busca maior eficiência
POR Ismael Jales
EM 19/06/2026

Foto: Divulgação
O avanço do Grupo Mateus nos últimos anos desenhou uma das trajetórias mais agressivas e bem-sucedidas da história recente do varejo alimentar brasileiro. Saindo de sua base histórica no Maranhão, a companhia expandiu suas fronteiras de forma voraz, erguendo um império que hoje cruza nove estados e a coloca firmemente como a terceira maior força do setor no país.
Essa escalada foi ancorada em uma estratégia focada na forte ocupação de praças, combinando a musculatura do atacarejo com uma malha logística que naturalmente criava uma barreira de entrada para novos concorrentes.
No entanto, manter esse ritmo de expansão geográfica passou a impor custos crescentes à operação.
Para se ter uma ideia, hoje (19), a companhia divulgou um comunicado sobre a unificação sob a bandeira Novo Atacarejo de todas as lojas Mateus nos estados de Pernambuco e Paraíba (leia mais nesta reportagem). Com a iniciativa, a empresa otimiza, por exemplo, custos de marketing e divulgação em geral.
Além disso, o Grupo Mateus entra agora em uma fase de consolidação, menos centrada em inaugurações e mais focada na eficiência das unidades já abertas. A expansão continua em ritmo mais seletivo, enquanto a companhia consolida uma base de aproximadamente 300 lojas em operação e avança com o Atacarejo 2.0, estratégia voltada a elevar a produtividade, revisar canais e maximizar o retorno sobre o capital investido.
Ajuste de formatos e revisão de canais
No primeiro trimestre de 2026, os efeitos desse ciclo de crescimento já apareceram nos resultados. O faturamento avançou 12,9%, atingindo R$ 9,4 bilhões, mas o lucro líquido recuou para R$ 213 milhões, pressionado pelo aumento de 29,3% nas despesas operacionais. Com o consumo mais retraído no Nordeste e a queda no preço de itens básicos da cesta, a estrutura passou a pesar mais sobre a rentabilidade.
Para estancar essa pressão, a companhia implementou cortes profundos e fechou 28 pontos de venda desalinhados com o novo foco de rentabilidade, promovendo um enxugamento que atingiu principalmente o braço de eletrodomésticos e formatos periféricos da rede.
Na operação B2B, o grupo desidratou o canal Balcão e a operação de televendas para pessoas jurídicas, reduzindo equipes e filtrando pedidos. A avaliação da diretoria foi a de que essas vendas tinham margens baixas e acabavam competindo com as próprias lojas físicas, desviando clientes da gôndola para operações com desconto excessivo.
Descompasso logístico e maturação regional
Em entrevista à SA+, Marcos Reis, diretor da Maxup Consultoria, especializada em varejo supermercadista e que acompanha o grupo de perto, apontou que o Mateus enfrenta o clássico desafio de expandir sua rede sem conseguir estruturar o suporte de retaguarda no mesmo ritmo, lidando com praças que ainda não atingiram o ponto ideal de maturação de vendas.
"O Grupo fechou o primeiro trimestre com 306 unidades operando em 9 estados, sustentadas pelos mesmos 18 centros de distribuição de doze meses antes. A retaguarda logística não acompanhou a abertura de gôndola", aponta Reis.
O consultor explica que a distância geográfica das novas frentes cria gargalos logísticos silenciosos que pesam diretamente na rentabilidade. "O custo de servir uma loja distante do CD, que envolve frete de transferência, reposição atrasada e ruptura de prateleira, costuma ser subestimado no plano de expansão. Multiplicado por dezenas de inaugurações em praças sem densidade de rede formada, a margem operacional ressente".
Essa realidade fica nítida na disparidade entre as regiões, escancarando o peso das filiais ainda em fase de maturação. Enquanto as praças tradicionais e maduras entregaram uma margem bruta de 24,6%, a nova frente de Pernambuco, Paraíba e Alagoas operou com margem de apenas 17,9% e fechou o período no vermelho, com prejuízo de R$ 38 milhões.
De acordo com analistas do setor, essa diferença de quase 7 pontos percentuais representa o pedágio da expansão geográfica, uma vez que as vendas ocorrem em pontos que faturam menos, mas demandam o mesmo custo logístico de abastecimento de uma rede consolidada.
O consultor Marcos Reis aponta que a cobrança por rentabilidade levou a companhia a reconhecer o cenário publicamente, transformando a redução do ciclo financeiro e o ajuste no giro de estoques em tarefas corriqueiras. Para o especialista, o foco do mercado agora está voltado para operações que demonstrem precisão no controle de perdas e eficiência baseada em indicadores por filial, preterindo a antiga busca isolada por metas de faturamento consolidado.
Disciplina e eficiência operacional
A resposta do comando do Grupo Mateus para o restante do ano foi estruturar uma estratégia clara de austeridade, com foco em rentabilidade e eficiência:
Rigor nas inaugurações: o investimento para abertura de novas unidades foi reduzido e os aportes para a compra de novos terrenos despencaram 71,1%. Agora, as poucas lojas que saírem do papel serão menores, com equipes enxutas e situadas apenas em locais com faturamento garantido.
Corte de despesas: um programa rigoroso de produtividade rodou comparando o desempenho entre lojas das praças maduras, gerando um corte de 8,8% no quadro de colaboradores dessas operações. O movimento surtiu efeito rápido, fazendo as despesas cederem já no mês de março.
Unificação comercial no Nordeste: em paralelo, o grupo anunciou nesta sexta-feira (19) o fim da bandeira Mix Mateus em Pernambuco, Paraíba e Alagoas, concentrando todas as operações sob a marca Novo Atacarejo. A decisão busca dar maior clareza para o cliente e simplificar a operação de abastecimento e o comercial.
De acordo com o comunicado ao mercado assinado pelo CFO e diretor de Relações com Investidores, Tulio José Pitol de Queiroz, a unificação atende a uma diretriz do conselho para implementar um modelo de negócios com características operacionais mais aderentes à marca Novo Atacarejo. A companhia projeta que o movimento vai blindar o posicionamento competitivo no Nordeste e gerar ganhos de escala e eficiência regional.
A transição será liderada pela equipe do Novo Atacarejo e deve ocorrer de forma ordenada nos próximos 30 dias, sem interrupção das atividades comerciais.
*A reportagem da SA+ entrou em contato com o Grupo Mateus para obter mais detalhes sobre o reposicionamento estratégico e o ajuste nos pontos de venda. Caso a companhia decida se posicionar, este espaço será prontamente atualizado.
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