11/06/2026
Perdas de R$ 42,1 bilhões: se o desperdício fosse uma empresa, seria a 4ª maior do varejo alimentar brasileiro
POR Reportagem SA+ Conteúdo
EM 11/06/2026

Foto: Adobe Stock
O prejuízo do varejo brasileiro com perdas operacionais e furtos atingiu a impressionante marca de R$ 42,1 bilhões em 2025. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, se esse montante financeiro fosse o faturamento de uma única empresa, ele superaria com folga os R$ 21,2 bilhões dos Supermercados BH, a 4ª maior rede de supermercados do país, transformando o rombo das perdas no quarto maior player do varejo alimentar nacional.
Os dados inéditos fazem parte da 9ª Pesquisa Abrappe de Prevenção de Perdas no Varejo Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas em parceria com a Protiviti, evidenciando que o desperdício avançou em ritmo muito mais veloz que a expansão das próprias empresas. Enquanto o faturamento do setor cresceu 6,4% no período, o impacto financeiro das perdas saltou 15,3%.
O avanço indica uma deterioração real na eficiência operacional das companhias. O índice médio de perdas sobre o faturamento saltou de 1,51% para 1,65% em apenas um ano. Na prática, a matemática do prejuízo ficou mais severa para o empresário: se antes era registrado R$1 perdido para cada R$ 66 vendidos, agora essa proporção encolheu para R$1 perdido a cada R$ 61 faturados.
De acordo com a análise da entidade, o fenômeno não está concentrado em uma única falha, decorrendo de uma combinação complexa entre pressões operacionais internas e o avanço dos furtos.
Dados: Abrape
Entre as maiores surpresas e dores de cabeça do último ano para os comitês de segurança, destaca-se o impacto das mudanças nos hábitos de consumo ligadas às canetas emagrecedoras.
O chamado varejo farma sofreu um impacto direto na segurança física, registrando um aumento expressivo nos furtos de medicamentos de alto valor agregado, como os da classe GLP-1, que inclui o Ozempic.
Paralelamente, esse mesmo comportamento afetou o segmento de lojas de conveniência por outra via, reduzindo subitamente a demanda por determinadas categorias de produtos e provocando uma disparada nas quebras operacionais de mercadorias que foram produzidas, mas não foram vendidas a tempo.
Os extremos da eficiência entre os segmentos
A realidade das perdas desenha um cenário de extremos dentro do mapa do varejo nacional. O pior desempenho absoluto ficou com o segmento de eletromóveis, que viu suas perdas totais dispararem impulsionadas por fraudes nos canais digitais e furtos não identificados.
As perfumarias também enfrentaram severas complicações internas, com as perdas operacionais disparando em decorrência de problemas com prazos de validade, erros de manipulação e falhas na exposição dos produtos nas gôndolas. As lojas de conveniência, por sua vez, registraram o maior índice geral de perdas de toda a pesquisa, severamente penalizadas pela alta presença de itens perecíveis e por estruturas ainda incipientes de prevenção.
Por outro lado, o mercado também apresenta exemplos claros de superação por meio de investimentos estratégicos. O formato de atacarejo se consolidou como o modelo mais eficiente do país na gestão de estoques, registrando uma redução expressiva em seus índices de perda.
Tecnologia de identidade digital aponta caminhos e soluções
Para manter as margens e reverter esses indicadores, a resposta do mercado passa obrigatoriamente pela digitalização e pela eliminação de pontos cegos na cadeia de suprimentos.
Um mapeamento global conduzido pela Avery Dennison (cuja cobertura detalhada do estudo foi publicada pela SA+ em abril deste ano) reforça que a inteligência operacional é o caminho mais curto para recuperar a rentabilidade, apontando a tecnologia de identidade digital como a principal ferramenta para transformar o desperdício em eficiência. A estratégia central consiste na aplicação de sensores e etiquetas inteligentes para rastrear o produto de ponta a ponta, alimentando sistemas de inteligência artificial capazes de prever a demanda com precisão e evitar o encalhe de perecíveis.
Grandes redes globais já utilizam essa abordagem com sucesso prático na operação. Nos Estados Unidos, marcas como Kroger e Walmart implementaram etiquetas inteligentes em categorias críticas e de alta quebra, como a padaria e itens de validade curta.
A tecnologia permite que os supermercados adotem sistemas de descontos dinâmicos automatizados para os produtos que se aproximam do vencimento, estimulando a compra rápida pelo consumidor e reduzindo drasticamente o descarte de mercadorias na gôndola.
Além da automação de preços, o setor também vem apostando em inovações de embalagem, como materiais que barram o etileno e retardam o amadurecimento de alimentos, conseguindo mitigar o desperdício em mais de 25% e provando que a tecnologia é o melhor remédio contra a invisibilidade das perdas.
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