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17/06/2026
Dia Supermercados encerra recuperação judicial antes do prazo previsto pela Justiça
POR Ismael Jales
EM 17/06/2026

Foto: Divulgação
O Dia Supermercados anuciou o fim de seu processo de recuperação judicial antes do prazo previsto. A decisão foi homologada pela Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo, após a varejista comprovar o cumprimento integral das metas e obrigações financeiras estabelecidas no plano de reestruturação aprovado pela Assembleia Geral de Credores.
O encerramento extingue o processo iniciado em março de 2024, que tinha previsão original de término para outubro de 2026. A retomada exigiu medidas profundas de reestruturação. Ao longo dos últimos anos, a empresa promoveu o fechamento de lojas e centros de distribuição considerados pouco rentáveis, concentrando seus esforços exclusivamente no estado de São Paulo.
Hoje, a rede opera 238 lojas, entre unidades próprias e franquias, todas concentradas no estado de São Paulo. A simplificação da estrutura foi acompanhada pela revitalização das unidades remanescentes e pela revisão dos processos operacionais, numa tentativa de recuperar competitividade em um mercado marcado por margens apertadas e concorrência crescente.
Conclusão antes do prazo contrasta com histórico de falências
O desfecho do processo do Dia contrasta com o histórico do varejo alimentar brasileiro, setor marcado por reestruturações complexas que frequentemente resultam em falência. A dificuldade de sobrevivência das redes de supermercados reflete um panorama nacional mais amplo de insolvência.
"O fim antecipado deve ser interpretado de forma positiva, principalmente em um cenário em que 77% das empresas que ingressam com pedido de recuperação judicial no País não se recuperam de forma efetiva", contextualiza Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Empresarial e Societário. Segundo ele, o encerramento demonstra o cumprimento das metas essenciais aprovadas pelos credores, um resultado estatisticamente raro no mercado brasileiro.
Do ponto de vista legal, a saída precoce da tutela estatal foi viabilizada pelas reformas recentes na Lei de Recuperação Judicial. "A nova legislação passou a tratar o período de supervisão judicial como um prazo máximo, e não como uma permanência obrigatória da empresa em recuperação por dois anos", explica o advogado.
Ao comprovar o pagamento das obrigações vencidas e manter a regularidade do plano, a rede obteve o aval do juízo. Canutto ressalta, porém, que a decisão não zera o passivo. "Isso não significa, necessariamente, que todos os compromissos de longo prazo tenham sido integralmente quitados, mas sim que a empresa demonstrou condições suficientes para deixar o ambiente de supervisão", conclui.
Operação mais enxuta, mas ainda sob pressão financeira
Os primeiros sinais da nova fase começaram a aparecer em 2026. Em janeiro, a companhia registrou receita líquida de R$ 153 milhões, crescimento de 7% em comparação com o mesmo mês de 2025, indicando uma melhora no ritmo de vendas após a reestruturação.
Contudo, a situação financeira ainda inspira cautela. Segundo dados obtidos pelo jornal Valor Econômico, o Dia acumulou prejuízo de R$ 376 milhões até março de 2026. Apesar do resultado negativo, a companhia teria reduzido o ritmo das perdas em relação ao ano anterior, com margem líquida negativa de 11%, ante 17% registrados em 2025. O jornal também informou que a varejista encerrou 2025 com faturamento de R$ 1,53 bilhão.
Além das dificuldades operacionais inerentes ao processo de reestruturação, a empresa ainda lida com os efeitos financeiros de investimentos realizados em CDBs do Letsbank, posteriormente incorporado ao Banco Master. O Dia reconheceu perdas totais de R$ 166,6 milhões, sendo R$ 116,6 milhões relacionados a créditos e precatórios cedidos e outros R$ 50 milhões referentes a valores parcelados a receber.
O episódio reforçou a necessidade de uma gestão mais conservadora e contribuiu para que a companhia priorizasse a geração de caixa, a disciplina financeira e o crescimento gradual, pilares que deverão sustentar a nova fase da empresa após a saída da recuperação judicial.
Um novo ciclo, mas não o fim dos desafios
Para o CEO do Dia Supermercados, Fabio Farina, a conclusão da recuperação judicial marca o encerramento de uma etapa decisiva da companhia. "O encerramento da recuperação judicial representa a conclusão de uma importante etapa da transformação do Dia. Cumprimos integralmente os compromissos assumidos, fortalecemos nossa operação e construímos bases sólidas para o futuro. Hoje iniciamos um novo ciclo, com foco no crescimento sustentável, na proximidade com nossos clientes e na geração de valor para todos os nossos públicos", afirma.
Apesar do avanço, especialistas avaliam que a companhia ainda enfrentará desafios importantes. "A saída da recuperação judicial não encerra todos os desafios do Dia. Ela retira a empresa da tutela judicial mais intensa, mas a sustentabilidade do negócio dependerá da capacidade de manter as alterações feitas em sua estrutura, reconstruir relações comerciais, competir com atacarejos e redes regionais e executar o novo posicionamento sem repetir os erros que levaram à crise", conclui Fernando Canutto. Mais do que encerrar uma recuperação judicial, o desafio do Dia agora será provar que a recuperação é sustentável no longo prazo.
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