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29/05/2026
Inflação de alimentos deve impulsionar atacarejo no 2º semestre; Assaí e Mateus seguem trajetórias distintas
POR Ismael Jales
EM 29/05/2026

Foto: Divulgação
O J.P. Morgan atualizou as estimativas para o varejo alimentar brasileiro após o primeiro trimestre e trouxe uma perspectiva cautelosa para o setor no segundo semestre. O relatório indica um cenário desafiador para a operação de rua, mas aponta uma possível alavanca no faturamento gerada pela inflação de alimentos, que pode atingir a casa dos 7% até o fim de 2026, colocando o Assaí como o competidor melhor preparado para capturar este momento. De acordo com o documento, essa aceleração deve inflar o crescimento nominal nas vendas em mesmas lojas a partir da metade do ano.
O banco faz um alerta sobre a incerteza na elasticidade do consumidor diante das novas remarcações na gôndola. Com o orçamento das famílias pressionado, a tendência apontada é de uma mudança de comportamento. O cliente passa a reduzir a quantidade de itens por compra, encolhendo o tamanho da cesta, e inicia uma migração para marcas mais baratas, o chamado movimento de trade down.
Na análise do banco, a inflação eleva o faturamento bruto, mas exige das redes uma precisão extrema nos preços para não afastar o cliente final.
A subida rápida de preços prevista pelo relatório é explicada por fatores que ocorrem antes mesmo de o produto chegar aos supermercados. O movimento é pressionado diretamente pela alta de custos detectada no atacado. Somam-se a isso os riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño influenciam a produção de alimentos e sustentam as estimativas de preços elevados para os próximos meses.
A realidade operacional nas lojas do Assaí
O relatório classifica o Assaí como a empresa melhor posicionada do setor para capturar os reflexos dessa aceleração de preços. Embora o J.P. Morgan pondere que o momento atual de curto prazo nas lojas ainda seja morno e sem grande brilho nas vendas, o documento afirma que a operação possui alavancas e gatilhos de crescimento muito mais visíveis que os dos concorrentes para registrar uma melhora gradual e sequencial até o fechamento do ano.
Esses motores estão ancorados na maturação das antigas lojas convertidas do Extra, que entram agora no ápice de seu ciclo de faturamento e densidade de vendas; na estratégia de desalavancagem financeira, que reduziu o Capex de novas aberturas para focar no abatimento de dívidas e aliviar o peso dos juros sobre o lucro líquido; e na localização premium de suas unidades em grandes centros urbanos, o que garante um público com poder de compra mais resiliente e facilita o repasse cirúrgico da inflação de alimentos sem sacrificar o volume no caixa.
Os desafios de renda e execução do Grupo Mateus
Em contrapartida, o relatório aponta que o Grupo Mateus enfrenta a situação mais complexa do setor. As lojas localizadas nas regiões Norte e Nordeste, principais mercados de atuação da companhia, estão operando com um desempenho abaixo da média nacional. Essa diferença se deve ao perfil demográfico e econômico dessas praças, onde os programas de transferência de renda do governo possuem um peso estrutural muito significativo na composição do orçamento familiar, estabelecendo uma dinâmica de consumo diferente da exposição geográfica de redes como o Assaí.
O J.P. Morgan explica que o volume de recursos desses auxílios governamentais registrou um encolhimento em termos reais na comparação ano a ano. Trata-se de um reflexo matemático sobre o poder de compra na gôndola: como a inflação dos alimentos acelerou rapidamente, o valor nominal dos benefícios perdeu capacidade de absorção dentro do supermercado, o que acaba restringindo o consumo local e impactando o giro das lojas. Além do fator de renda regional, a operação do Grupo Mateus foi afetada por uma mudança na sua própria execução de loja. Como noticiado pela SA+.
O Banco aponta que a decisão da empresa de encerrar o serviço de balcão de atacado em determinados estados eliminou uma fonte direta de receita. Essa alteração estratégica no modelo de atendimento funciona como um obstáculo interno adicional, atuando diretamente como um vento contrário que segura o ritmo de crescimento do faturamento bruto da rede.
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