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21/05/2026
GPA vende fatia na Stix para a RD Saúde para concentrar esforços no varejo alimentar
POR Ismael Jales
EM 21/05/2026

Foto: Divulgação
O GPA deu mais um passo fundamental em seu plano de reestruturação financeira e operacional ao anunciar, na noite da última quarta-feira , 20, a venda de sua participação de 66,7% na Stix Fidelidade por R$ 23 milhões. O ativo foi adquirido pela RD Saúde, controladora das redes Raia e Drogasil. O negócio extingue a joint venture criada em 2019 e marca a estratégia do grupo de alienar ativos não estratégicos para concentrar esforços e capital exclusivamente no varejo alimentar. O movimento ocorre em paralelo ao avanço de sua Recuperação Extrajudicial.
A alienação da participação na plataforma de fidelidade representa o desinvestimento de um negócio que já não conversava diretamente com as prioridades operacionais do GPA. Sob os termos do acordo, a RD Saúde, que já detinha a fatia restante de 33,33%, passa a controlar de forma integral o programa de fidelidade.
A engenharia financeira da transação estipula o desembolso de R$ 2 milhões no momento da assinatura do contrato e o restante, equivalente a R$ 21 milhões, na conclusão definitiva do processo. Embora o desfecho do negócio ainda dependa do aval regulatório do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), as companhias já estabeleceram um plano de transição estruturado.
O principal objetivo desse arranjo é blindar a experiência dos consumidores nas bandeiras Pão de Açúcar e Extra Mercado, assegurando que o acúmulo e o resgate de pontos Stix continuem operando normalmente nas lojas físicas e plataformas digitais. Atualmente, a plataforma Stix conecta marcas de diversos segmentos, como Petlove, Shell e Netshoes, oferecendo aos consumidores a facilidade de realizar a troca e a consolidação de pontos entre as redes parceiras.
Em entrevista a SA+, o analista André Matos, CEO da MA7 Negócios, disse que a saída do ecossistema de fidelidade é um passo pragmático e necessário para o momento da companhia. "O GPA está fazendo o dever de casa ao se descorrelacionar de ativos que, embora tenham valor, demandam atenção gerencial e não movem o ponteiro do resultado principal. Em um momento de reestruturação severa, focar 100% da energia no varejo alimentar de alto desempenho é o único caminho para reconquistar a confiança do mercado e do fornecedor", avalia o especialista.
Essa visão corrobora a tese da própria varejista, que justificou a operação como parte essencial de sua estratégia de alocação de capital e concentração de esforços em suas atividades principais.
O preço final da transação também passa por uma leitura realista do mercado sobre o real tamanho do ativo. Matos explica que os R$ 23 milhões pagos pela fatia majoritária embutem um valuation total de aproximadamente R$ 34,5 milhões para a Stix, cifra que expõe as dificuldades do projeto em ganhar a escala desenhada originalmente em 2019.
"A Stix nunca atingiu a escala originalmente desenhada. Ela também enfrentou a concorrência consolidada da Livelo e dos programas das companhias aéreas, e teve dificuldade de atrair novos parceiros em segmentos como combustíveis e moda", contextualiza, apontando que o desinvestimento serve mais para liberar a atenção da gestão do GPA para a operação central do que para capturar prêmios financeiros.
Para o analista, o desfecho do negócio deixa uma lição clara para o setor: "O valor é coerente com o tamanho atual da Stix, mas está distante da ambição inicial do projeto, e isso por si só já é um recado sobre os limites da coalizão de fidelidade no varejo brasileiro."
O fôlego financeiro trazido pela recuperação extrajudicial
A venda da Stix funciona como um complemento a um movimento muito mais robusto de saneamento financeiro que o GPA consolidou nos últimos meses. Em uma investida agressiva para estancar o consumo de caixa, a varejista costurou em menos de dois meses a adesão de mais de 57% de seus credores não operacionais a um plano de Recuperação Extrajudicial.
O porcentual garantiu o caráter vinculativo do acordo, obrigando toda a classe a aderir às novas diretrizes e reduzindo a dívida total da companhia em mais de R$ 2 bilhões.
A empresa segue em um periodo conturbado. O GPA encerrou o primeiro trimestre de 2026 imerso em um cenário desafiador, com a receita bruta recuando 5,2% (para R$ 4,8 bilhões) e o prejuízo líquido disparando para R$ 1,3 bilhão, severamente impactado por mais de R$ 1 bilhão em baixas contábeis de ativos e créditos. Os únicos respiros operacionais vieram do Ebitda ajustado, que subiu 12% para R$ 458 milhões impulsionado por cortes de custos, e pelo avanço de 0,6% nas vendas de "mesmas lojas" que, embora positivo, registrou o menor ritmo de crescimento para as bandeiras Pão de Açúcar e Extra Mercado desde 2024. Saiba mais sobre os resultados do GPA no 1T26 aqui.
Revisão operacional
Paralelamente às costuras financeiras de alto escalão, o comando executivo liderado pelo CEO Alexandre Santoro e pelo CFO Pedro Albuquerque iniciou um processo severo de simplificação interna sob a premissa de executar as questões básicas do varejo com excelência.
Essa reestruturação cortou até um quarto das despesas da sede coorporativa e mirou gargalos históricos de eficiência. Um dos alvos foi a área de tecnologia, onde a dependência de mainframes obsoletos inflava os custos de processamento e travava a inovação digital.
Outra frente crítica de eficiência envolve a revisão da malha logística nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. O GPA vinha carregando contratos de aluguel, equipes de segurança e IPTU de galpões e imóveis superdimensionados, herdados do antigo formato de hipermercados, modelo que a companhia descontinuou por completo e que vinha afetando as margens operacionais sem contrapartida de receita.
O distanciamento do Casino e o fortalecimento local
No plano societário, a saída da Stix ocorre em meio ao desembarque total do grupo francês Casino, que comandou a varejista entre 2012 e 2024. Conforme apurou o portal InvestNews, o investidor europeu desistiu de buscar um comprador estratégico e passou a liquidar suas ações diretamente na bolsa, o que levou o GPA a obter uma liminar em abril para interromper as vendas. A varejista brasileira argumenta que os recursos do Casino precisam ficar retidos para garantir uma disputa arbitral de R$ 2,5 bilhões com a Receita Federal.
Ainda segundo a InvestNews, a fatia francesa perdeu poder de barganha e virou um ativo marginal diante da crise da matriz na Europa. O esvaziamento político do Casino abre espaço para a consolidação de acionistas nacionais de referência. Entre eles, a família Coelho Diniz, que lidera o conselho com 24,6% do capital, e o empresário Silvio Tini, cuja holding Bonsucex já detém cerca de 24% das ações, que podem ditar os novos rumos do grupo.
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