30/04/2026
Entenda como a Reforma Tributária fará o varejo recalibrar os preços e margens
POR Barbara Fernandes
EM 30/04/2026

Foto: Adobe Stock
A Reforma Tributária deve alterar de forma estrutural a formação de preços no varejo alimentar. Com a adoção do modelo de IVA Dual, a lógica atual, marcada por cumulatividade e distorções entre estados e cadeias, dá lugar a um sistema mais transparente, em que a carga tributária passa a ser mais clara ao longo de toda a operação.
Na prática, isso reduz diferenças que hoje fazem com que produtos semelhantes tenham tributações distintas, dependendo da origem ou do regime do fornecedor. A tendência é de uma precificação mais alinhada aos custos reais. Ainda assim, o impacto não será uniforme. Durante a transição, algumas categorias podem ter redução de carga tributária, enquanto outras podem registrar aumento, o que afeta diretamente as margens.
No caso dos alimentos essenciais, a previsão de alíquota zero ou reduzida para itens da cesta básica deve influenciar a precificação, embora os efeitos concretos dependam da regulamentação final e da forma como os créditos serão apropriados ao longo da cadeia.
Uma das mudanças mais relevantes está na forma de cálculo dos tributos. Hoje, os impostos são aplicados “por dentro”, embutidos no preço final. Com a reforma, passam a ser calculados “por fora”, destacados sobre o valor do produto. A alteração simplifica a visualização, mas exige revisão completa da lógica de precificação.
“Tudo o que o varejo aprendeu sobre formação de preço precisa ser revisto. O imposto deixa de estar embutido e passa a ser calculado de forma explícita, o que muda completamente a base de cálculo”, afirma Vanderlei Goulart, diretor-presidente da Meta Assessoria Empresarial. “Hoje, se meu custo é de R$ 8 e o meu tributo é de 20%, o preço final chega a R$ 10. Com o imposto por fora, esse mesmo produto iria para R$ 9,60”, exemplifica.
Essa mudança tem impacto direto sobre as margens. Ao manter
o mesmo percentual sem recalcular a base, o varejista pode comprometer a
rentabilidade, já que a margem passa a incidir sobre um valor diferente.
“Se o varejista mantiver o mesmo percentual sem recalcular a base, pode perder rentabilidade pois a margem passa a incidir sobre um valor menor”, explica o executivo. “É preciso entender que 30% sobre R$ 10 é diferente do que 30% sobre R$ 9,60. Não dá para manter a mesma margem no ERP e esperar o mesmo resultado. A conta não fecha.”
Na prática, será necessário recalibrar margens para preservar o lucro efetivo. Em muitos casos, isso significará aumentar o percentual de margem, mesmo com preços finais menores.
Além disso, a negociação com fornecedores ganha um novo peso. “Caso os preços de compra não sejam ajustados à nova lógica tributária, o impacto pode ser repassado ao consumidor ou absorvido pelo varejista”, ressalta o diretor.
“Se o varejista não ajustar a conta, perde margem sem perceber. Não dá para manter o mesmo percentual e esperar o mesmo resultado”, alerta o executivo.
Além disso, a eliminação de distorções do sistema atual tende a expor falhas históricas na precificação. Produtos que aparentavam boa rentabilidade podem revelar margens menores do que o esperado, ou até prejuízo, após a reconfiguração tributária.
A negociação com fornecedores também ganha um novo peso. Com a mudança na lógica de tributação, os preços de compra precisam ser recalculados para evitar distorções ao longo da cadeia. Caso isso não ocorra, o impacto pode ser absorvido pelo varejo ou repassado ao consumidor.
“Os fornecedores também terão que rever seus preços. O ideal é buscar uma neutralidade tributária nas negociações, recalculando os valores com base no novo modelo”, explica Goulart.
O efeito da reforma varia entre os formatos do varejo alimentar. Operações de atacarejo, que trabalham com margens mais apertadas e forte sensibilidade a preço, tendem a sentir mais rapidamente qualquer variação tributária. Pequenos ajustes podem impactar diretamente o volume de vendas.
Já supermercados tradicionais e de perfil premium podem ter maior flexibilidade no curto prazo, mas também precisarão revisar suas estratégias para manter competitividade em um ambiente mais transparente.
Apesar dos ganhos esperados no longo prazo, o período de transição exige atenção redobrada. A necessidade de recalcular margens, ajustar preços com frequência e adaptar negociações aumenta o risco de erros e perda de rentabilidade.
Nesse contexto, a precificação deixa de ser apenas uma atividade operacional e passa a ser um processo estratégico. O uso de dados, simulações tributárias e revisão contínua das margens será essencial para garantir competitividade em um cenário mais transparente, mas também mais exigente.
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Barbara Fernandes
Repórter








